André Luis Mansur Baptista: Turismo pelo subúrbio carioca

Grupos buscam valorizar a história dos bairros das zonas Norte e Oeste

Por O Dia

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Já faz alguns anos, um movimento do qual participo vem buscando valorizar, através do turismo, uma região que não figura nos cartões-postais e nem na programação de roteiros dos órgãos públicos. Refiro-me ao subúrbio carioca, incluindo aí a Zona Oeste, uma região que sempre foi importantíssima para a cultura e a economia da cidade, mas que já há várias décadas vem sofrendo um processo de degradação contínua em todos os sentidos.

E qual a importância dos roteiros turísticos pelos subúrbios? Em primeiro lugar, mostrar, para moradores de outras regiões, como essa região foi, e é, importante para a cidade. E em segundo, aumentar a autoestima das pessoas em relação ao lugar onde elas moram, já que o processo de degradação começa exatamente a partir do momento em que o morador usa frases do tipo "ah, meu bairro não tem nada", ou "eu não quero saber daqui não, vou embora assim que puder". O deslumbramento dos moradores quando percebem a importância histórica do seu local de residência, assim como suas belezas naturais, aumenta a identificação e a sensação de pertencimento delas com o bairro. Aquela velha expressão "quem ama, cuida" se revela aqui em todo o seu potencial, pois quando você passa a ver o seu espaço de forma positiva, começa a reivindicar com mais força melhorias na saúde, na educação, na segurança, na cultura etc.

Participei de roteiros principalmente aqui na zona oeste, em bairros como Santa Cruz, Campo Grande, Paciência, Realengo, Bangu, Cosmos e Pedra de Guaratiba, e também na zona norte, como Marechal Hermes, um dos mais visitados. Mas os roteiros transitam também por Jacarepaguá, Madureira, Ramos, Penha etc, a região onde surgiram as primeiras freguesias rurais, lá no início da colonização da cidade, a de Nossa Senhora da Apresentação de Irajá e de São Tiago de Inhaúma, que depois se desdobrariam em outras, como a de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, só para mostrar como o que seria chamado de subúrbio está fortemente ligado ao surgimento e desenvolvimento do Rio de Janeiro.

É interessante notar também que os roteiros não se fixam apenas nos pontos mais importantes e conhecidos dos bairros, mas também buscam histórias que ficaram na tradição oral, aquele cineminha que ficava onde hoje é a padaria, um personagem ilustre que teria morado naquela casa onde hoje é a oficina, e também, é claro, como sempre acontece, a "casa mal-assombrada", que tem em todo bairro e a molecada morria de medo de passar por ela. "Todo mundo tem uma história para contar", diz a expressão antiga, e da mesma forma todo bairro tem uma história para ser contada. E é isso que vem sendo feito por esse pessoal, que antes do dia do roteiro faz várias visitas de reconhecimento ao bairro, pesquisando, conversando com moradores mais antigos, tudo para que no dia o passeio seja o mais completo possível e, claro, divertido também.

Grupos, e também instituições, como Pé de Moleque, Rio de Coração Tour, Camempa (Casa da Memória Paciente), Noph (Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz), Ecomuseu de Sepetiba, Revelando o Brasi, Rolé Carioca, Guiadas Urbanas, Sou+Carioca, PajuTour Rio, entre outros, vêm realizando esses roteiros pelos subúrbios cariocas. Todos podem ser facilmente encontrados na internet e os passeios são divulgados amplamente nas redes sociais. Portanto, se um dia você estiver caminhando pela rua e encontrar um grupo contando a História do seu bairro, participe. Sua experiência como morador vai trazer sempre um diferencial que não é encontrado nas pesquisas históricas e você vai participar de um trabalho que tem tudo para crescer muito mais, transformando para melhor essa importante região da cidade.

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