Ediel Ribeiro: 'Adeus, Alfredinho'

Dono do Bip, núcleo de resistência na cidade, se despediu no início do Carnaval

Por O Dia

opinião 7 março 2019
opinião 7 março 2019 -

“É proibido batucar nas mesas”. Se você é de frequentar botecos, já deve ter dado de cara com esse simpático aviso. Felizmente, nem todo dono de botequim é ruim da cabeça ou doente do pé. E as rodas de samba tomaram de assalto (calma, leitor, é só força de expressão) os botequins do Rio.

A do Bip-Bip, em Copacabana, comandada pelo Alfredinho, é uma das mais tradicionais e simpáticas da cidade. O Bip - é assim que todo legítimo habitué chama o boteco - convenhamos, é apertado. Tá bom, apertadão! E quente! Mas, ainda assim ninguém reclama.

O boteco é tão apertado que pra você mudar de assunto tem que ir lá fora. Quando a casa tá cheia é impossível ficar ao redor dos músicos. A turma se espalha pela calçada.

Só conheci um pé-sujo menor que o Bip: O Bar do Samuca, em Santa Tereza. Eu costumava frequentar o Bar do Samuca com Ykenga, então cartunista do DIA. O bar era tão pequeno que só tinha uma mesa. Quem chegava depois, sentava na calçada, encolhendo a bunda por causa do bonde, que passava na porta.

Mas isso já é assunto pra outra crônica.

O Bip-Bip – fundado em 13 de dezembro 1968, dia da implantação do AI-5, Ato Institucional que endureceu a repressão do regime militar – era um local de resistência artística e cultural.

Reduto de boêmios, jornalistas, artistas e intelectuais; a partir de 1984, virou a casa da MPB, quando Alfredinho assumiu a casa. É o quarto dono. Carismático, apesar do senso de humor ácido, Alfredo Jacinto Melo, o popular Alfredinho, transformou o espaço de 18 metros quadrados em atração internacional.

Alfredinho é conhecido tanto pela generosidade como pela ira voltada contra os que quebram a etiqueta do local: no caso os que ousam falar mais alto durante as apresentações ao vivo.

Lá não tem garçons. Os próprios clientes pegam suas cervejas no freezer e cortam o queijo no balcão.

O nome do bar,Bip Bip, é uma homenagem ao satélite russo Sputnik, pelo seu barulho. Mas lá, não se faz barulho. “É a casa da música - resume, Alfredinho. Às segundas e terças, rola uma roda de choro; às quartas, bossa nova; quintas, sextas e domingos o samba come solto. Músicos da nova geração, vez ou outra, dividem o espaço com bambas.

Mas como tudo o que é bom dura pouco, a roda de samba acaba cedo. Ordens do prefeito, acho. Dá última vez que estive lá, mês passado, para o lançamento do livro ‘Sons da Palavra’, do escritor e amigo Luís Pimentel, tive o prazer de rever Alfredinho.

Em pleno carnaval, Alfredinho faleceu. Deixando todos nós que gostávamos dele e gostamos de música, boemia e carnaval, com cara de quarta-feira de cinzas.

Adeus, amigo.

Ediel é jornalista e escritor

 

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