Nuni Jorgensen: Mulheres migrantes no século 21

Mudança nos padrões migratórios em termos de gênero coloca oportunidades e desafios para os países de destino, de origem e trânsito

Por O Dia

Nuni Jorgensen, Médicos Sem Fronteiras (MSF)
Nuni Jorgensen, Médicos Sem Fronteiras (MSF) -

Rio - O futuro é feminino. Muitos já devem ter ouvido essa frase. De fato, ainda que em meio a tantas contradições e diferenças regionais, os séculos 20 e 21 experimentaram a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, vida política e produção de conhecimento. Foi também a partir de 1960 que, segundo grande parte das estimativas disponíveis, evidencia-se uma gradual feminização dos fluxos migratórios internacionais. Por feminização queremos dizer que não somente o volume de mulheres se deslocando através de fronteiras nacionais cresceu, mas também que a proporção relativa de mulheres para homens vem aumentando significativamente ao longo das últimas décadas do século XX e início do século XXI.

Mas por que afinal esse fenômeno vem ocorrendo até o ponto de dizermos que os fluxos migratórios são, hoje, equilibrados em termos de gênero? Em primeiro lugar, o envelhecimento populacional dos países europeus criou uma demanda particular por mão de obra feminina nas tarefas de cuidado com idosos. Gerou-se o que até então não era tão comum: a migração feminina independente da masculina, com mulheres saindo em busca de emprego nos países ricos. Por outro lado, muitos países também passaram a fazer distinções mais claras entre fluxos laborais e de refugiados, onde os últimos, em geral, costumam ter predominância de mulheres. Hoje a ONU estima que mais da metade dos refugiados, deslocados internos, e apátridas sejam mulheres e meninas.

Essa mudança nos padrões migratórios em termos de gênero coloca oportunidades e desafios para os países de destino, de origem e trânsito e devem ser levadas em conta na assistência humanitária prestada às pessoas em movimento. Em primeiro lugar, as mulheres migrantes passaram a ser importantes geradoras de renda para seus Estados de origem, através das remessas enviadas às suas famílias. A partir do trabalho, da renda e do contato com outras culturas elas também são capazes de mudar sua situação de poder dentro de suas próprias casas e alterar antigos padrões de gênero em que o homem figurava como principal tomador de decisão. Mas esses processos não são simples ou unidirecionais. Porque os regimes migratórios são cada vez mais seletivos, as trabalhadoras migrantes são muitas vezes levadas a deixar para trás filhos e pais idosos. Muitas percebem-se, assim, divididas entre o novo papel de provedoras à distância e as antigas expectativas de cuidado com os dependentes que permanecem na origem.

É premente, também, entender que a violência baseada em gênero é em si um forte motivo para as mulheres terem de sair de seus países de origem, seja em contextos de parcial falência estatal, seja em situações de conflito tradicionais. Para as mulheres rohingyas, às quais Médicos Sem Fronteiras provê serviços de saúde, a violência sexual é uma realidade tanto na origem, quanto na rota migratória em busca de segurança. Já aquelas que saem de Honduras - um dos países do mundo com taxas de feminicídio mais altas - são frequentemente obrigadas a cruzar o México com contrabandistas. Esse processo, além de torna-las invisíveis para organizações de assistência humanitária, também as põe em especial risco de se tornarem vítimas do tráfico de pessoas. De fato, o tráfico de pessoas para fins de exploração laboral e sexual ainda atinge especialmente mulheres e meninas em todo o mundo.

A migração feminina no cenário contemporâneo guarda, assim, tanto elementos emancipatórios quanto coercitivos. Garantir o direito de todas a ficar ou migrar com segurança é uma das muitas lutas a serem travadas no século 21.

Nuni Jorgensen é demógrafa de Médicos Sem Fronteiras

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