
Rio - Nomes de bairros sempre despertam curiosidade. E o mais interessante é que, ao lado da versão, digamos, oficial, há sempre a lenda, a explicação mais folclórica, que ficou na tradição oral durante décadas, às vezes séculos, e muitas vezes são as mais interessantes. É o que acontece com o nome da Ilha de Guaratiba e de outros bairros aqui da zona oeste do Rio de Janeiro.
Quando comecei a conhecer a região, lá pelos anos 80, estava em Campo Grande e vi um ônibus com o destino “Ilha”. Meu primeiro pensamento foi que ele seguia para a Ilha do Governador. Mas depois vim a descobrir que não havia, e não há até hoje, um ônibus direto entre Campo Grande e Ilha do Governador. Que ilha era essa então? Aí me explicaram que era a Ilha de Guaratiba. Ah, tudo bem, Guaratiba tem um amplo litoral, deve ser alguma das ilhas que estão ali por perto. Mas que nada. A Ilha de Guaratiba fica
é em terra mesmo, foi o que me disseram, e seu nome tinha a ver com um tal inglês que morou lá fazia muito, mas muito tempo. Um tal de William.
Reza a lenda, e aí vem a versão folclórica, que um inglês chamado William, que teria vindo com a Corte Portuguesa, em 1808, foi morar em Guaratiba e aí, quando as pessoas iam para lá, diziam: “Vai aonde? – Para a fazenda do seu William. – Que William? – O William de Guaratiba”. E aí o tal William de Guaratiba,
com o tempo, e bota tempo nisso, foi mudando até chegar ao nome atual de Ilha de Guaratiba.
Bem, como eu disse, esta é a versão folclórica. A outra explicação diz que o nome Engenho da Ilha já existia bem antes da chegada da Família Real e não tem nada a ver com inglês nenhum, e sim com a grande quantidade de rios e canais da região, que quando enchiam (e lembremos que os rios tinham muito mais água do que hoje) deixavam uma grande porção de terra, mais elevada, cercada de água por todos os lados, a tal Ilha de Guaratiba. Como não sou dono da verdade, nem pretendo ser, deixo para cada um escolher a sua versão - eu escolho esta última.
O mesmo acontece com Realengo, que para muitos é a abreviatura de um engenho que existia por lá, o tal Real Eng., que com o tempo passaria a ter o nome atual. A outra versão, na qual eu acredito, é que toda aquela região fazia parte das Terras Realengas, ou seja, terras que eram do Reino de Portugal na época da colônia e onde não se podia construir nada particular. Houve algumas invasões de fazendeiros, é verdade, mas no século XIX, quando o governo imperial resolveu transformar aquela região em área militar, ela estava praticamente vazia de construções particulares, justificando a origem do nome.
O bairro de Inhoaíba, entre Campo Grande e Cosmos, também tem duas explicações para a origem de seu nome. Tem a de origem indígena, Nhu (campo) Ahyba (ruim), e a que fala dos escravos de uma fazenda que chamavam o seu dono de “Sinhô Anibal”, ou “Inhô Aniba”. Confesso que neste caso ainda não sei em qual eu acredito. Também o bairro de Vila Valqueire, já ali entre as zonas norte e oeste, possui uma explicação bem curiosa sobre o seu nome, a de que teria existido uma fazenda em um tal “V Alqueire” (“V” é “cinco” em algarismo romano, seria um “quinto alqueire"), mas neste caso não há dúvida, o nome vem mesmo do fazendeiro Antônio Fernandes Valqueire, dono de um engenho na região no século XVIII. Mesmo assim há quem acredite no tal "quinto alqueire".
Dúvidas à parte, esta e outras versões sobre os nomes de vários bairros da cidade sobreviveram até hoje, mostrando a força da tradição oral, que se muitas vezes está distante da verdade registrada em documentos oficiais, ela não deixa de ter o seu valor ao despertar a curiosidade dos moradores pela origem dos nomes dos seus bairros. Como já falei aqui neste espaço, conhecer a História do seu bairro é fundamental para se criar afinidade com ele e saber o que reivindicar em melhorias e investimentos. E saber a origem do nome do bairro, da rua ou do logradouro é o primeiro passo para isso. Afinal, quem não fica curioso ao ouvir falar em nomes como Pau da Fome, Curral Falso, Manguariba, Marapicu, Paciência, Viaduto dos Cabritos, Buraco do Faim, Esquina do Pecado, Marco 7, Caminho do Vai e Vem e tantos outros que enriquecem a História, "oficial" ou não, da Zona Oeste do Rio de Janeiro?
André Luis Mansur é jornalista e escritor