Gabriel Chalita, colunista do DIA - Divulgação
Gabriel Chalita, colunista do DIADivulgação
Por O Dia

São Paulo - “Perdoe-me, mãe, mas não sou a minha irmã”.

Foi essa a frase que eu disse em tom de desabafo. Não, Não foi hoje, nem ontem. Faz algum tempo. Faz muito tempo, E por que ainda me lembro? Porque algumas marcas ficam.

Minha irmã era a filha perfeita, pelo menos era assim que parecia ser. Ou era assim que eu me sentia.

Eu não sou mãe. Quis ser, mas fui me distraindo com tantos afazeres que, quando acordei, não era mais possível. Meu marido tem dois filhos do seu primeiro casamento. Quando nos casamos, eram eles bastante crescidos. A mãe morreu há muito e, até hoje, observo que ela faz falta. Como morreu cedo, ficou com a imagem de perfeita. A imperfeita sou eu, mais uma vez.

Minha irmã mais velha era uma aluna exemplar, pelo menos era isso que diziam. Não sei ao certo. A diferença de idade impediu que eu testemunhasse essas tais glórias. Foi pianista. Nunca vi. Mas dizem que, aos 4 anos, tocou para um plateia atônita. Quando eu nasci, ela tinha 11 anos. E nunca a vi tocando. Só uma foto que me irritava pelo lugar de destaque que ocupava.

Casou cedo e teve filhos. Eu demorei a me casar. Ela era mais bonita, disso não há dúvida. Era mais falante. Sempre fui dos cantos. Não. Não tive voz para cantar. Dos cantos silenciosos. Observava, apenas. Ouvi minha mãe dizendo que eu vim por descuido. Eu juro que ouvi. Quando cobrei isso, um dia, ela disse que eu inventei essa história. Que jamais teria dito. Que os pais amam os filhos da mesma maneira. Que eu era a caçula. Que, no máximo, pode ter dito que eu não havia sido programada, mas que, quando soube que estava grávida, ficou muito feliz. Não tenho tanta certeza disso.

Só sei que sempre sofri com as comparações. Frases ditas como "Sua irmã nunca nos deu trabalho", "Veja sua irmã, ela sempre conseguiu", "Por que você não faz como sua irmã?".

Os filhos do meu marido me chamam de tia. Eram crescidos quando nos casamos, já disse isso. Mas conheço outras crianças que chamam a mãe, que não é mãe, de mãe. Por que não fazem assim comigo? Por que não sou tão perfeita?

Meu marido diz que cada um é cada um. Diz quando cobro que ele fala com muito amor da que se foi. Ela era mais bonita do que eu. Sei disso pelas fotos. Viveram juntos por dezoito anos. E ele está comigo há mais de 20. Então, deveria gostar mais de mim do que dela. Um dia, cometi a insensatez de dizer isso à minha irmã. Ela me olhou com a superioridade dos que se julgam sãos. Havia sido apenas um desabafo.

Um dos filhos do meu marido foi o orador da sua turma. Com os pensamentos marejados, depois dos agradecimentos de praxe e dos ditos sobre o futuro, meneou a cabeça, permitiu um brilhar comovente nos olhos e falou da mãe que ali não estava, que ali estava. A mãe permanecia dentro dele. Confesso que compreendi, mas que sofri por ser apenas tia.

Os filhos da minha irmã não foram oradores das suas turmas. Não sei por que digo isso. Se eu tivesse tido filhos, eu os trataria da mesma maneira e não cobraria deles perfeição alguma. Eu os amaria apenas.

Não quero ser injusta. Talvez minha mãe tenha me amado. Talvez os meninos me amem. Mas por que, então, não me sinto amada? O que me falta? Meu marido é um bom homem. Gostamos um da companhia do outro. Nossas conversas não nos cansam como pode acontecer com o acúmulo de tempo. Ele me surpreende com presentes surpreendentes. Mas, vez ou outra, eu sinto que ele só faz isso porque a outra faleceu. Outro erro. Falei isso para minha irmã e ela, a perfeita, sem sensibilidade alguma, respondeu, "Claro, se a outra não tivesse morrido, ele não teria se casado com você. Quer mais chá?". Fiquei em silêncio. Por que não? Como ela sabe? Se ela não tivesse morrido, ele poderia ter percebido as suas imperfeições. E perguntar se eu queria mais chá, no meio dos meus desatinos, é não gostar de mim. Minha irmã não gosta de mim. Sinto isso. Só convivo com ela porque preciso. Preciso? Aliás, não sei por que convivo. Ela teima em contar histórias dos seus sucessos e de falar do amor que sempre teve. E eu fico ouvindo. É o que me resta.

Os pais não fazem por mal. Mas se soubessem o estrago que fazem quando comparam os filhos!

Tenho uma foto com minha mãe na cabeceira da minha cama. Será que, de onde ela está, ela sabe o quanto eu a amo?

Gabriel Chalita é professor e escritor.

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