Marcos Espínola: Causa e efeito

Naturalmente o cidadão foi perdendo a confiança, não só na polícia, mas no estado como um todo

Por O Dia

Marcos Espínola
Marcos Espínola -

Rio - Para uma sociedade ficar incrédula é preciso fatos e muito tempo de problemas recorrentes, sem que providências efetivas tenham sido tomadas. A recente pesquisa divulgada pelo Datafolha apontando que 51% dos brasileiros têm mais medo do que confiança na polícia, enquanto 47% confiam na corporação mais do que a temem demonstra uma realidade que pode ser vista de vários ângulos. Numa análise breve e objetiva é possível crer que a população conta com a polícia e que tal receio de muitos pode estar diretamente ligado a uma política de segurança equivocada, na qual os próprios policiais e agentes de segurança em geral também foram vítimas.

Como já foi dito exaustivamente, o crescimento do crime organizado no Rio e no Brasil vem desde a década de 80 e sucessivos governos passaram inertes no que diz respeito a políticas eficazes para frear o narcotráfico e manter a segurança pública num patamar que garantisse a população os direitos previstos na Constituição. Tal inércia se agravou ainda mais quando se percebeu a estrutura alcançada pelas facções criminosas que, além de sólidas, se multiplicaram, dividindo os morros cariocas e criando territórios dominados por criminosos. Espremido entre eles ficou o cidadão, que viu a criminalidade invadir o asfalto.

A partir dessa realidade governo após governo foi adotado o combate ostensivo para enfrentar um exército do crime extremamente bem armado. O resultado? Derramamento de sangue, cidadãos vítimas de balas perdidas e policiais exterminados. Ações suicidas, sem qualquer inteligência nos levaram ao caos e, pouco a pouco, o povo perdeu o direito de ir e vir.

Assim, naturalmente o cidadão foi perdendo a confiança, não só na polícia, mas no Estado como um todo. O agente policial na linha de frente acabou se tornando o símbolo máximo dessa falta de credibilidade, tendo em vista o protagonismo alcançado pela violência. Mas não podemos esquecer os 47% que acreditam na corporação. Trata-se de quase metade da sociedade que conta e torce por melhores condições de trabalho para aqueles profissionais que podem os defender e manter a ordem. Além disso, a confiabilidade nesses agentes de segurança foi provada nas urnas, com dezenas de policiais, militares em geral e até juízes eleitos no Brasil, vide o presidente da República e o governador do estado. 

E talvez nunca estivemos num momento tão favorável para que mudanças aconteçam, e um novo tempo se inicie. O atual comando do estado está em seu começo, mas já demonstra, claramente, um olhar diferenciado, no qual a inteligência passará a ser a premissa no trato da segurança pública. Policiais passaram a ser tratados como peça fundamental no combate ao crime, o que não pode ser diferente. Boa parte da visão deturpada que parte da população tem sobre a polícia foi fomentada pela permissividade de posturas do poder constituído que pouco valorizavam a tropa.

Enfim, estamos falando de causa e efeito. Não podemos mudar o que passou, mas podemos construir uma nova história. Diante de um estado falido economicamente devemos dar tempo ao tempo para a nova gestão se organizar e adotar medidas eficazes, já claramente sinalizadas e que nos traz esperanças.

Marcos Espínola é advogado criminalista

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