Saudade, poesia e glamour

Por Gustavo Ribeiro Alves*

 

 

Não sei por onde ficou aquele conto. Infelizmente não cheguei a imprimir. Era o primeiro, uma espécie de desvirginamento prosaico. Se fosse feito nas antigas Remingtons nada disso teria acontecido. Já estaria pronto, ainda que inacabado.

Por isso que sou velho, gosto de coisas antigas. Móveis, roupas, fachadas e comportamentos. Havia muito mais elegância. Uma fotografia de um escritor com seu suspensório, cigarro caído no canto da boca, olhando de soslaio enquanto datilografa alguma coisa em seu escritório em preto e branco. Havia mais poesia e glamour. Nada comparado a esta necessidade vulcânica de aparecer a qualquer custo, com biquínis minúsculos ou ostentando badulaques que mais parecem fantasias de agremiações carnavalescas.

O mais interessante de tudo é que antes da imagem havia o conteúdo. E, normalmente, o conteúdo era muito bom, altamente expressivo e inovador. Não havia necessidade de diplomas ou títulos para que alguma coisa bem escrita fosse apresentada nos jornais da época ou publicado nos folhetins matutinos. Havia bom gosto, inspiração e um toque de genialidade.

O fato é que a necessidade de consumo aumentou. A demanda por ter começou a se sobrepor, consideravelmente, à demanda por ser. O tempo passou a ganhar outra conotação. O imediatismo passou a figurar como questão de ordem em nosso tempo e o instantâneo das redes sociais não permite nem sequer refletir sobre o que seria ou não interessante divulgar.

Criamos com isso um abismo qualitativo. Produzimos móveis vagabundos, equipamentos descartáveis, música medíocre, comida congelada, roupas... que roupas? Produzimos androgenia sem sentido. Criam-se novos paradigmas com o fito de se tornar diferente e com isso alcançar os holofotes midiásticos. Demitem-se intelectuais, escritores e musicistas. Contratam-se falastrões egocêntricos e maniqueístas, fofoqueiros e gente que canta com o corpo, porque se fosse pela voz, não passariam pela porta do programa de calouros da rádio nacional.

É isso que vivemos hoje. Feministas sustentadas por pais machistas. Comunistas que vestem Prada. Presidente militar que não dá golpe. Jornalistas que nunca ouviram falar no “Pasquim”. Artistas que expõe batata cravejada de pregos.

Saudade do tempo que não vivi. Do tempo em que os Nelsons cantavam e escreviam. Do tempo em que os móveis resistiam a mudanças. Do tempo em que se esperava uma fotografia de família ficar pronta, tirada da antiga máquina lambe-lambe.

Gustavo Ribeiro Alves* - professor do Estado - graduado em Geografia na Uerj

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