Luciano Cunha Noia: Menos morfina, mais cannabis

Nos últimos anos, diversas pesquisas científicas apontam que a Cannabis Sativa pode ser usada como substituto às doses diárias de opioides ingeridas por estes pacientes

Por O Dia

Luciano Cunha Noia
Luciano Cunha Noia -
Rio - A dor crônica é um problema contemporâneo vivido pelas populações de diversos países. É provocada por diversas causas, entre elas, traumas, postura ruim, esforço repetitivo e má-formação de ossos. Um número significativo de pacientes em todo mundo não consegue anular esta dor com medicamentos ou procedimentos cirúrgicos. O final da história sempre acabou em analgésicos à base de ópio (opioides), geralmente a morfina, que, além do forte efeito entorpecente e da dependência química e física que provoca, acaba perdendo seu efeito com uso contínuo, já que o organismo dos pacientes acaba ganhando tolerância à esta droga.

Mas, nos últimos anos, diversas pesquisas científicas apontam que a Cannabis Sativa pode ser usada como substituto às doses diárias de opioides ingeridas por estes pacientes. Sem oferecer risco à vida, nem os efeitos colaterais que estes medicamentos provocam. O THC, um dos principais e mais abundantes canabinoides encontrados na planta da maconha, atua como inibidor da dor, e o organismo consegue se desintoxicar significativamente mais rápido dele do que pelo uso de morfina.

Nos Estados Unidos, onde o consumo de opioides se tornou algo preocupante para as autoridades em saúde pública, muitos profissionais estão receitando o uso de óleos à base de cannabis ao invés da morfina.

Aqui no Brasil, o uso medicinal de Cannabis Sativa é permitido por meio de diversas autorizações, entre elas, da Anvisa. Mas o medicamento precisa vir de fora. E chega aos pacientes a preços exorbitantes. O tratamento mensal à base de óleos e outras extrações de cannabis pode ultrapassar facilmente os oito mil reais. Mesmo assim, muitos pacientes têm optado por este tratamento em função da eficácia e da segurança.

Aqueles que não podem arcar com estes custos, acabam buscando o Poder Judiciário com ações que permitam o cultivo de maconha em casa. Dessa forma, eles conseguem fazer, de forma artesanal, seu próprio remédio, livrando-se dos altos custos da medicação importada.

Recentemente, tive a oportunidade de representar dois pacientes do Rio de Janeiro, com hérnia de disco, que não tinham condições financeiras para importar os extratos de maconha. Nos dois casos, eles foram autorizados pela Justiça a cultivar maconha em casa, e o tratamento deles agora está menos agressivo e com melhores resultados.

Acredito que as autoridades brasileiras precisam desburocratizar ainda mais o acesso à cannabis terapêutica a estes pacientes, regulando a produção, distribuição e consumo. Até porque muitos não têm acesso a advogados para obter esta autorização, e muito menos a verbas exorbitantes que permitam importar o medicamento. Os pacientes precisam ter liberdade em escolher qual tratamento atende melhor suas patologias e necessidades e que, consequentemente, melhorem suas qualidades de vida.

Luciano Cunha Noia é advogado no estado do Rio de Janeiro e ativista pela cannabis medicinal

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