Alfredo Laufer - Divulgação
Alfredo LauferDivulgação
Por O Dia
Rio - Vamos, inicialmente, nos concentrar nos DNAs de três elementos básicos de nossa história:
1 - A “mosca azul”: Ela possui duas características que aparecem associadas ao seu DNA: o apego ao poder e a vaidade. Uma pessoa “mordida pela mosca azul” embarca num estado de embriaguez, de alucinação, em que perde a noção da realidade.

No poema “A Mosca Azul”, Machado de Assis fala de uma mosca com “asas de ouro e granada”, “refulgindo ao clarão do sol”. O próprio inseto dizia: “Eu sou a vida, eu sou a flor, das graças, o padrão da eterna meninice, e mais a glória, e mais o amor”.

Ainda no poema, um pária (homem da mais baixa classe do sistema de castas da Índia) observando a beleza da referida mosca, ficou “deslumbrado de tudo, sem comparar, nem refletir”. Passou a ver na mosca o próprio rosto e a sonhar com poder e riqueza. Julgando estar diante de um tesouro, aprisionou a mosca, levou-a para casa e dissecou-a, ocasionando a sua morte. No final, o poema diz que o pária ensandeceu e “que não sabe como perdeu a mosca azul”.

2 - Na Tailândia: um elefante é considerado um animal sagrado e um eficiente guerreiro e trabalhador quando se necessita de força para certos deslocamentos. Um elefante se alimenta em média com 400 kg de comida. Sua preservação em cativeiro tem um custo muito elevado, só permitido a gente muito rica, ou países em desenvolvimento, como o Brasil. Conta-se que quando a Tailândia estava em guerra contra um vizinho, que também tinha o elefante como elemento sagrado, seu imperador presenteou o inimigo com um elefante albino:, ele não podia trabalhar; nem guerrear; nem sacrificá-lo. Pelo contrário: ao elefante albino as tropas inimigas deveriam fornecer diariamente os 400 kg de comida a um guerreiro que nada fazia. Daí a origem do termo “elefante branco” para monumentos e empreendimentos que custam muito, e nada produzem para a sociedade.

3 - Rio de Janeiro: palco de discussões sobre a construção de um novo autódromo para Fórmula 1. Por volta de 1989 (fui testemunha ocular desta história), a Cidade do Rio de Janeiro teve sua falência decretada pela Câmara Municipal, devido a seus hospitais não atenderem às mínimas condições de saúde e limpeza; suas escolas estarem com as salas em pandarecos; e greves de todos os trabalhadores municipais por atraso de pagamento. Neste cenário, a Fórmula 1 se desenvolvia no Autódromo do Rio, com o Sr. Bernie Ecclestone, então grão senhor da F1, exigindo condições financeiras cada vez maiores aos cofres municipais, impossíveis de serem atendidas. São Paulo viu a chance de atrair o chamado circo da F1, oferecendo o que o Rio não tinha naquele momento.

Comentava-se na época, que a Fórmula 1, geralmente realizada na Páscoa, produzia grandes ganhos financeiros e turísticos ao Rio. Estudos econômicos e financeiros feitos naqueles anos demonstravam que mais de 90% dos turistas eram brasileiros, e que a grande maioria vinha passar a Páscoa no Rio, sem intenções de adquirir os custosos ingressos da Fórmula 1, embolsados integralmente pela administração da entidade organizadora comandada pelo chefão do espetáculo, Bernie Ecclestone.

Agora, parece que a “mosca azul” volta atacar alguns dirigentes empresariais e institucionais cariocas. Veem nela o seu reflexo, projetando sua própria vaidade e apego às posições, a utilização da estrutura do poder, e o autoritarismo das “castas”, não se restringindo aos ambientes políticos.

Nos tempos em que vivemos, precisamos desenvolver líderes que tenham mais consistência que aparência; mais fundamentos que argumentos e que, com humildade e desapego, não deixem florescer em si a mosca azul. É preciso perceber que mais um evento desta envergadura (lembremos dos diversos “elefantes brancos” gestados para trazer as Olimpíadas e a Copa do Mundo) deve ser pautado nos resultados e experiências de um coletivo de pares (e não de párias). Precisamos ter noção que os investimentos a serem produzidos devem possuir uma visão comum de eficiência para o bem comum e não às castas.

Para impedir tal tentação, é preciso deixar constantemente os canais abertos, como quem abre sua própria janela para evitar o mofo e a proliferação de larvas, tão atraentes à caprichosa mosca.


Alfredo Laufer é empresário, escritor e ex-presidente da Riotur