Catia Mourão - Divulgação
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Por O Dia
Rio - Mais do que um produto comercial, o livro é um agregador de valores, reconhecido através do tempo como objeto indispensável no aprendizado e no enriquecimento cultural da civilização. Talvez por isso os efeitos da prolongada crise que afeta o mercado editorial e livreiro no Brasil sejam tão preocupantes.

Se um país é feito de homens e livros, como disse Monteiro Lobato, que futuro pretendemos deixar para nossas crianças?

Como um paciente em estado terminal, o livro agoniza e necessita de socorro urgente. Segundo dados da última pesquisa realizada pela FIPE – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, o setor encolheu um quarto de tamanho entre 2006 e 2018, com destaque para as perdas acentuadas nos últimos quatro anos.

Culpa da crise econômica e do desemprego, você dirá. Sim, mas existem outros fatores a serem considerados, como a falta de aquisições por parte do MEC durante quatro anos e os problemas gerados com os atrasos nos contratos das editoras selecionadas no edital de 2018, destinado à aquisição de livros para abastecer as escolas públicas no ano letivo de 2019.

A falta de investimentos na área de formação profissional é outro fator que influencia diretamente o mercado do livro e nessa balança podemos incluir ainda a mudança de hábitos da população, principalmente os mais jovens, que dedicam cada vez mais tempo às redes sociais e séries de TV, deixando de lado a leitura e fazendo com que o livro perca espaço nas estantes.

O perfil do consumidor de livros também mudou e esse não é um privilégio nosso, ele ocorre no mundo inteiro. Hoje, a maioria da população vive em apartamentos cada vez menores e não sobra espaço para armazenar todos os livros lidos ao longo da vida. Formar uma biblioteca em casa é uma tarefa que requer tempo e muito espaço disponível.

Outro ponto que favorece essa mudança é a facilidade de se comprar qualquer produto pela internet e receber na comodidade do lar, muitas vezes instantaneamente, como no caso da compra de um ebook ou audiolivro.

Somem-se a isso as recentes recuperações judiciais das duas maiores redes livreiras do país, que assolaram o mercado no final de 2018 e temos um quadro alarmante, que coloca em risco toda a cadeia produtiva do livro.

O problema vem de longa data e piora a cada ano. E a alta do dólar, que determina o preço do papel, só agrava ainda mais a situação.

O antigo modelo de negócios, no qual editoras forneciam publicações em consignação e aguardavam por longos períodos para receber pelas vendas, não se sustenta mais, pois a economia exige das empresas um modelo de gestão enxuto, que garanta agilidade no retorno do investimento, para manter o fluxo de caixa ativo e sobreviver no mercado.

Então, o livro impresso que tanto amamos vai deixar de existir? Provavelmente não, mas precisamos de ações urgentes, sérias e comprometidas. Do contrário, corremos o risco de nos tornar uma nação sem livros.

Catia Mourão é escritora e editora da Ler Editorial