Renata Bento: A criança, seus limites e suas frustrações

A criança, em qualquer idade, é capaz de lidar com as perdas, desde que isto seja conversado numa linguagem específica que ela possa suportar

Por O Dia

Maio/2017.A psicanalista Renata Bento no seu consultório na Barra da Tijuca..Foto: Selmy Yassuda
Maio/2017.A psicanalista Renata Bento no seu consultório na Barra da Tijuca..Foto: Selmy Yassuda -
Rio - Cada criança é unica, isto quer dizer que parte de sua constituição emocional vem a partir das relações primárias, pai e mãe, do ambiente em que a criança vive e de seu componente inato.

A família e a escola tem um papel fundamental no desenvolvimento da inteligência emocional e social da criança. Quando a criança é convidada a refletir sobre os seus sentimentos e suas próprias ações aprendendo a lidar com a frustração e com o limite, percebendo que possui um mundo interno repleto de sentimento e pensamentos, ela passa a ter uma relação mais harmônica com ela própria e com o mundo eterno.

O papel dos pais é fundamental nesse processo de amadurecimento emocional da criança. Eles podem e deve desenvolver a capacidade de conversar com os filhos sobre os sentimentos, decodificando e mobiliando o mundo interno da criança. Isto ocorre no dia a dia , na conversa rotineira, escutando as indagações, respondendo algumas perguntas, fazendo outras, demonstrando interesse pelo mundo mental da criança, ou seja, no próprio relacionamento entre eles. A criança tem necessidade de ser compreendida. Se os pais recebem o turbilhão emocional que vem da criança de forma desesperada e devolve a ela, também deste modo, não conseguirá uma mudança emocional sadia.

A criança, em qualquer idade, é capaz de lidar com as perdas, desde que isto seja conversado numa linguagem específica que ela possa suportar. Sempre lembrando que o mundo mental da criança está em amadurecimento e uma criança não é um “mini” adulto. É um equívoco pensar que a criança não percebe seu entorno, a criança percebe tudo a sua volta, ela pode não saber exatamente o que está ocorrendo, mas ela percebe e sente que existe ‘algo no ar.

A criança precisa aprender a lidar com frustração e com limite. Dizer não pode ser difícil para alguns adultos, mas é imprescindível para a criança. O limite trás segurança para a criança. Impor limite é tão importante para a criança quanto para os pais. Nós os adultos, também estamos submetidos a lei e aos nãos. Adulto também não pode tudo. E é isso que a criança precisa compreender ao longo de seu desenvolvimento e amadurecimento emocional. Além de ser primordial, é também um grande desafio para os pais fomentar a paixão e o envolvimento da criança no mundo, ao mesmo tempo em que a ensinam a adequar-se às normas da sociedade. Criança mimada, ao contrário do que se pensa, não é criança feliz. Provavelmente terá desafios maiores a partir da adolescência e em sua vida adulta, pois não aprendeu a entender, lidar e conter suas próprias emoções.

A criança não tem capacidade de mencionar verbalmente que algo não vai bem em seu mundo mental, ela vai “dizer"em forma de sintomas.

A partir do momento em que se percebe que a criança está disfuncional, ou seja, verificam-se prejuízos no âmbito emocional e/ou social. Por exemplo, a criança começa a apresentar dificuldade de interação familiar ou escolar; a criança pode se isolar, apresentar baixo rendimento escolar, automutilação, ansiedade, dificuldades na alimentação, sono, entre outros. Esses sintomas todos surgem como sinais de que algo não vai bem em seu desenvolvimento.

São muitos os distúrbios emocionais que podem acometer as crianças. Alguns podem ser transitórios e tendem a se organizar com o próprio crescimento da criança, por exemplo, um período com dificuldade para dormir. Podem ainda surgir distúrbios psicossomáticos que surgem como doenças dermatológicas e respiratórias de fundo emocional (dermatite atópica, alergias na pele ou cabelo, rinites, amigdalite de repetição, asma, entre outros). É preciso avaliar e compreender a estória da criança e seu contexto. É muito comum observar que quando a criança inicia um processo terapêutico, esses sintomas tendem a desaparecer rapidamente.

Em casos mais graves em que existe um distúrbio psicossomático é importante fazer acompanhamento psicológico concomitante ao tratamento médico.
Renata Bento é psicóloga especialista em criança, adulto, adolescente e família
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