Gabriel Chalita: O sorriso da solidão

Mirtes é afeita aos temas da alma. Não teve a oportunidade de estudar, mas teve a de sofrer. E, de sofrimento em sofrimento, foi se fazendo conhecedora das feridas e dos jeitos de se seguir em frente

Por O Dia

Gabriel Chalita, colunista do DIA
Gabriel Chalita, colunista do DIA -
Rio - Mirtes é afeita aos temas da alma. Não teve a oportunidade de estudar, mas teve a de sofrer. E, de sofrimento em sofrimento, foi se fazendo conhecedora das feridas e dos jeitos de se seguir em frente.

De ferimentos, também entendo, mas não de seguir em frente. Primeiro, porque tenho dificuldade em rasgar o que me vincula. E, depois, porque fico esperando que alguma coisa aconteça para que o que venha seja melhor.

Meu marido é ríspido. Sempre foi assim. Minha mãe, desconfiada dos presentes adiantados, quis que eu pensasse melhor. Nunca fui de pensar muito. Mirtes diz que sou impulsiva. O fato é que me casei. E que, desde os inícios, ele me trata com destrato.

Acordo com receio. O dia pode ser bom ou pode ser como geralmente é. Meço a temperatura do seu humor pelos ditos iniciais. Sou sempre a errada. O pão nunca está aquecido corretamente. O cheiro do café comprova que está fraco. Eu engordei. Fala aos outros que me trocaria por duas mais jovens e mais magras. E eu digo nada. Ele ri de boca aberta das coisas que diz e, se não rio, se zanga. Então, eu rio o riso triste dos que têm medo de partir.

Os seus afagos são raros. Apenas, quando me quer. E, quando resolve, reclama que não falo. O meu silêncio o incomoda. Mas, se eu falar, impulsiva que sou, será pior.

Mirtes diz que estou errada. Que ainda morro de alguma doença provocada pela dor. Que Deus me perdoe, mas eu rezo para que, um dia, eu acorde, e ele tenha morrido. Aí, sim. Tudo estaria resolvido.

Se ele viaja, penso em algum acidente. Acidentes acontecem. Não seria nada de extraordinário. Já fingi doença muitas vezes. Nesses dias, ele declina de maldizeres e oferece algum cuidado. Mas tenho medo das desconfianças. Um dia, chamou um médico e ficaram sussurrando hipóteses. Temi pelo retorno. Dormiu sem cerimônia. E roncou como de costume.

Quando ele viaja, durmo a paz dos livres. Enfeito-me de desejos. E abraço a noite feliz. Não tivemos filhos. Fiz, a seu mando, todos os exames. Ele credita a mim a infertilidade. Eu credito a ele a infelicidade.

Mirtes diz que estamos errados. Os dois. E quem tem coragem para corrigir erros? Vai que a vida resolve? Ele não gosta de Mirtes. Ela sugeriu que ele fizesse exames para ver se haveria algum tratamento. Ele sorveu o ódio, balançou o silêncio e descontou em mim. Jamais admitiria ser infértil.

Os erros são meus. Todos. Sempre.

Não faz muito tempo que me trouxeram a notícia de uma suposta amante. Ri por dentro. Pensei nos seus dizeres, despedindo-se de mim e partindo para uma outra história. Ensaiei o que diria. Teria que, primeiro, me fazer de sofrida, chorar um pouco talvez, lamentar que tudo tenha terminado. E, depois das roupas saídas, usaria meu mais lindo vestir e experimentaria a cor da liberdade.

A cada noite que ele chegava, aguardava a notícia. Por enquanto, nada. Só o mesmo queixume, o mesmo permanecer me negando a mim mesma.

Queria ser como a Mirtes. Com a coragem de sorrir o sorriso da solidão. 
Gabriel Chalita é professor e escritor

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