Júlio Furtado: Avaliação x seleção

Os processos de avaliação da aprendizagem visam descobrir quem já atingiu os objetivos e quem ainda não, visando tomar providências para que todos atinjam

Por O Dia

Julio Furtado
Julio Furtado -
Rio - Em mais um debate sobre avaliação da aprendizagem ouço dos professores os mesmos velhos, repetitivos e equivocados argumentos: “Mas temos que preparar os alunos para o ENEM e para os concursos que eles vão fazer! A vida é competitiva e a avaliação precisa preparar para isso!”. Interessante observar que se passam anos, décadas e até mesmo séculos e a avaliação da aprendizagem continua a ser mal-entendida pela escola, que deveria ser a instituição a serviço do esclarecimento da sociedade sobre o verdadeiro papel de avaliar. Tal analogia é equivocada pelo simples fato de que ENEM e concursos não são processos de avaliação, mas sim de seleção, de classificação.

Os processos de seleção têm como principal objetivo, descobrir quem são os melhores para atribuir a eles algum mérito que, no caso do ENEM é uma vaga no ensino Superior e no caso da maioria dos concursos, é uma vaga de emprego. Todo processo de seleção visa separar os de melhor desempenho dos de pior desempenho, com vistas a premiar os melhores e punir os piores. Os processos de avaliação da aprendizagem visam descobrir quem já atingiu os objetivos e quem ainda não, visando tomar providências para que todos atinjam. Pode parecer ousado, mas o objetivo da escola é fazer com que todos aprendam e o processo de avaliação da aprendizagem serve para ajudar a garantir essa meta ousada.

Na vida, avaliar segue essa lógica. Avaliamos o nosso trabalho, com o objetivo de corrigir o que não está bom. Avaliar tem sempre intenção positiva de viabilizar o alcance de metas e objetivos, de mudar para que tudo dê certo. Essa é a essência da avaliação. Avaliar pressupõe compromisso com o resultado. Qual seria a lógica da seleção na escola? Separar os que aprendem mais rápido dos que tem mais dificuldades de aprender para premiar os melhores e punir os piores? Essa lógica parece razoável para uma instituição obrigatória por lei e que tem como objetivo formar pessoas?

À escola, cabe fazer com que todos aprendam e para isso ela precisa estar preparada. As diferenciações que ocorrem dentro da escola devem ser fruto das condições que os que aprendem mais rápido precisam ter para seguirem em frente no seu ritmo, mas os ritmos de todos precisam ser respeitados e apoiados. Nunca é demais lembrar que a competência da escola e dos professores é construída pelos alunos de aprendizagem mais lenta, muito mais do que por aqueles que aprendem facilmente.
Júlio Furtado é professor e escritor

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