Gabriel Chalita: Briga de irmão

Minha mãe tinha o talento de amaciar as conversas, e meu pai era um escultor de gentilezas. Dizem que são os opostos que se atraem, mas, em casa, eu via o contrário

Por O Dia

Gabriel Chalita, colunista do DIA
Gabriel Chalita, colunista do DIA -
Rio - Minha mãe tinha o talento de amaciar as conversas, e meu pai era um escultor de gentilezas. Dizem que são os opostos que se atraem, mas, em casa, eu via o contrário. Na docilidade dos que me trouxeram ao mundo, fui crescendo e conhecendo o doce e o resto.

O doce estava, também, nas compotas que minha mãe fazia. Meu pai chegava em casa e comia com os olhos o prazer que ela havia preparado. E, depois, se alimentava de tudo. E, antes de se despedir do dia, tomava-a em seus braços para o principal alimento, o amor.

Foi assim que meu irmão e eu passamos as etapas da vida. Até que, um dia, saímos de casa. Ele se casou primeiro. Depois, eu. Depois, meus pais se foram. Em menos de um mês, nos despedimos dos dois.
No velório de minha mãe, meu pai se benzia com a serenidade dos que sabiam que o reencontro não seria demorado.

Eu disse que, além do doce, conhecemos o resto. E o resto também faz parte da vida. E o resto desvaloriza a vida.

Alguns anos se passaram depois da orfandade. Deixamos de ser filhos para sermos pais. E irmãos é o que seremos sempre. Até o dia da despedida.

O resto azeda a vida. E foi assim, em uma tarde boba, em uma briga de futebol, em um dissenso, que nos olhamos enfurecidos e nos prometemos distância. Para sempre.

Torcemos para times diferentes que, naquela tarde boba, jogavam. E a falta que houve ou não foi o motivo da falta que até hoje ele me faz. Não me lembro de quem gritou primeiro. Havia outras pessoas. Exaltamo-nos nas ofensas. E eu saí da casa dele trazendo meu filho comigo. Que me olhava em silêncio. Saí falando impropérios contra o tio. Justo eu que fitava com admiração a serenidade dos meus pais.

Dias depois, eu já havia percebido a desnecessidade da separação. Esperei que meu irmão pensasse o mesmo e que me procurasse. Talvez ele também tenha esperado. Só vou saber hoje. Os dias chegam e partem como uma sinfonia perfeita. Nas pausas, nos desapercebemos do tempo. E o tempo traz acordes que nos acordam para continuar a canção.

A canção sem meu irmão virou solo. Minha mulher ensaiou algum dizer e desistiu. Meu único irmão tão perto e tão longe. Cheguei a passar pela rua dele, próxima à minha, numerosas vezes, para que nos encontrássemos por acaso e para que tudo voltasse a ser como nos dias em que as compotas de doce de abóbora e de coco e de figo e de leite adoçavam nossa conversa na mesa da cozinha.

Dizem que palavras convencem e que exemplos arrastam. Os exemplos dos nossos pais deveriam nos arrastar para o abraço. Quanta coisa cabe em um abraço!

Ontem, quando um novo dia veio me despertar, fiz as contas. Cinco anos de ausência. Nesse tempo, eu o visitei apenas nas ideias, nos pensamentos. Enriqueci-me de tristezas. E tudo pelo amargor da soberba. Julgava eu que era ele quem deveria me procurar. E me pedir desculpas de uma briga que nem lembro como começou.

Antes do dia de ontem, sonhei com os meus pais. Meu pai preparava um chá para aquecer o dia frio. Minha mãe soletrava dizeres com o prazer dos que sabem comer os cheiros. No sonho, eles estavam felizes. E, súbito, entrava meu irmão e sorria para mim. E foi assim que acordei e que contei o tempo. Foi assim que telefonei e foi assim que ele atendeu. Antes do medo do desprezo tomar conta de mim, ele disse que iria me ligar naquele dia. Que a saudade era tanta que era preciso me ver.

Será que ele sonhou também o sonho bonito dos nossos pais? Quem nos acordou desse incômodo?

E marcamos o encontro. Minha mulher ouviu o meu relato e, com algumas lágrimas, enfeitou o seu sentimento. Por que demorei tanto?
Daqui a pouco vamos almoçar. Só nós dois. Nós dois e as lembranças do doce e do resto. E, depois, tudo voltará ao normal. Como deve ser. E, depois, eu quero sonhar de novo e, de novo, revisitar o quentume dos dias em que crescemos.

Na casa dos meus pais, havia fogão a lenha. O fogo demorava para aquecer. Mas, aquecido, nos aquecia com aquelas brasas que brincavam de cantar barulhos. Meu irmão é o que me resta daquele tempo. E, depois do encontro, vou explicar ao meu filho que eu errei. E pedir desculpas por ter me esquecido de viver.
Gabriel Chalita é professor e escritor 

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