Alexandre Arraes: A Amazônia dos cariocas

O fato é que fingimos não conhecer nossas tragédias locais. Preferimos tratar dos assuntos nacionais e internacionais a enfrentar os problemas mais próximos de nós

Por O Dia

Vereador Alexandre Arraes
Vereador Alexandre Arraes -
Rio - O mundo trava uma batalha de desinformação para decidir se o ex-pulmão do mundo (agora, soubemos que são as algas) queima ou não. Vale tudo nessa guerra. De demissão do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), passando por revelações sobre empresas poluidoras norueguesas e alemãs, até chegar à fausse nouvelle présidentielle. Aliás, é bom que se lembre de que fake news do americano Bush sobre armas de destruição em massa quase levaram o mundo à Terceira Guerra Mundial. O tema é obviamente relevante e parece que não há verdade inteira em canto algum. De qualquer maneira o presidente Jair Bolsonaro resolveu esclarecer alguns pontos via rede nacional e de certa forma apagou parcialmente o incêndio político que suas declarações têm causado internacionalmente.

O Brasil invadiu as redes sociais em atos em defesa da floresta e em manifestações pró-Amazônia que aconteceram no último fim de semana. "Vamos às ruas pela Amazônia"! gritam os ativistas. Mas os mais rápidos e eficientes são os cariocas. Eles têm uma enorme capacidade de mobilização para temas internacionais e nacionais. Cariocas são cidadãos do mundo. Adriana Calcanhoto poderia até acrescentar esse atributo em sua canção "Cariocas". Por outro lado convivemos resignadamente com as tragédias de nossa cidade, sem qualquer sinal de reação. Muito menos ir às ruas. Foram mais de seis mil homicídios em nosso Estado em 2018. A Rocinha continua disputando o primeiro lugar na incidência de tuberculose. A favelização sem controle avança sobre a Mata Atlântica e 30% dos cariocas já moram em áreas informais. Trabalhadores passam 25% de sua vida útil em transporte público de qualidade duvidosa, caro, desconfortável e sem integração tarifária.

E há mais: as calçadas irregulares já são problema de saúde pública, pois o custo médio com a internação de vítimas de acidentes ao caminhar é de R$ 40 mil e o Rio disputa com Manaus e Salvador o primeiro lugar no ranking de piores calçadas, segundo levantamento da ONG Mobilize Brasil. E o saneamento? A tragédia nacional se repete no Rio de Janeiro. Verdadeiro crime ambiental com cadáver, provas, testemunhas e culpados facilmente identificáveis. Só não há punidos. Os números aqui são piores que a média do resto do país. Segundo estudo do Instituto Trata Brasil o Rio caiu da 39ª para a 51ª posição entre as cem maiores cidades brasileiras e também pioramos o nosso percentual de esgoto tratado sobre água consumida - apenas 46%. Conseguimos piorar mesmo depois de todos os investimentos feitos para os Jogos Olímpicos. Não há lugar sem sinais da falta de saneamento. Praias e rios imundos, calçadas com bueiros entornando esgoto, canais exalando odor fétido, lagoas podres e agonizantes e a Baía de Guanabara moribunda.

Falta de saneamento, vale lembrar, custa caro, mata, reduz a capacidade produtiva do trabalhador e o desempenho escolar do aluno. Pessoas que moram em áreas sem saneamento têm chance cerca de dez vezes maior de serem internadas para tratar doenças de veiculação hídrica. Além disso, têm 2,5 anos a menos de anos de estudo e ganham cerca de R$ 1,3 mil a menos. O Governo do Estado do Rio e sua empresa Cedae em 2017 investiram apenas R$ 15,65 per capita em saneamento, enquanto o Brasil investiu R$ 54,26 e São Paulo R$ 179,49. Nada disso parece sensibilizar o carioca, que aceita calado o monopólio de uma estatal ineficiente, historicamente usada para fins eleitorais, que joga esgoto in natura na rede pluvial e nos corpos hídricos, que cobra caro por serviço não executado e desperdiça água tratada na distribuição como poucas empresas. Além disso, recebe no Rio 77% de suas receitas e investe quase integralmente seus recursos em outros municípios, num subsídio cruzado inaceitável, uma vez que. na capital, há áreas sem oferta mínima de serviço de saneamento.

O fato é que fingimos não conhecer nossas tragédias locais. Preferimos tratar dos assuntos nacionais e internacionais a enfrentar os problemas mais próximos de nós. Pensamos o Brasil, mas esquecemos do estado e da cidade, do bairro, da rua e do nosso condomínio. Elegemos representantes para a Câmara Municipal e Assembleia Legislativa que defendem bandeiras nacionais que só podem ser tratadas em Brasília sem nos preocuparmos com o que farão com seus mandatos locais. Seguimos resignados e inertes em relação ao que pode nos afetar direta e objetivamente. E assim esses temas vão ficando para depois. Ocorre que o "depois" chegou e continuamos a não fazer nada. Até quando? Sempre haverá temas nacionais e os locais nunca deixarão de existir. Então, por favor, procure saber o que anda fazendo o vereador em quem você votou, coloque na agenda a próxima reunião da associação de moradores e busque entender o que está acontecendo no seu bairro e discutir os problemas da cidade. Que é de todos nós.

Alexandre Arraes é vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro

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