Geraldo Nogueira - Divulgação
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Por O Dia
Rio - Era cedo quando toquei a cadeira de rodas em direção ao elevador com o intuito de chegar à garagem e sair de carro. Neste dia, como advogado, faria uma audiência trabalhista marcada para o primeiro horário. Peguei o elevador que partiu e parou dois andares abaixo. Entrou uma senhora com trajes de banho. Provavelmente iria fazer aula de hidroginástica, o que comumente acontece todas as manhãs na piscina do prédio. Era uma senhora simpática, que logo me abriu um sorriso fazendo com que a cumprimentasse: - bom dia senhora! Ela me respondeu: - bom dia, tá indo passear, né? - Mas senhora, eu estou de terno, paletó e gravata! Caso estivesse indo passear, estaria de bermuda e camiseta. E ela prontamente afirmou: - é bom pra distrair a cabeça...
O episódio acima, tão comum no cotidiano das pessoas com deficiência, revela-nos a amarga realidade da existência do preconceito em nossa sociedade. Um preconceito baseado na criação cultural de estereótipos que reforçam, no imaginário social, a incapacidade ou infantilidade de uma pessoa, simplesmente por ter algum tipo de deficiência, não importando se o seu cognitivo está preservado. Basta uma deformidade física, uma névoa nos olhos ou simplesmente um andar torto e lá vem a infeliz imaginação social de que aquela pessoa é incapaz de produzir, de se virar sozinha ou mesmo de se sustentar.

Essa forma negativa de ver as pessoas com deficiência causa prejuízos, não só aos indivíduos com deficiência, mas a toda sociedade, pois é dessa negatividade que vem o preconceito e do preconceito é que nasce a discriminação. Estes estereótipos tiram da pessoa com deficiência a oportunidade de trabalho e de inclusão social. Por isso é comum encontrar, mesmo nos órgãos voltados para trabalhar socialmente a inclusão da pessoa com deficiência, a maior ocupação dos postos de trabalho e de comando por pessoas sem deficiência, o que não ocorre com outros segmentos sociais, como por exemplo, o movimento de mulheres, igualdade racial e LGBT. Nesse ponto, estes segmentos avançaram e, pelo menos, nos espaços de ativismo de suas causas conseguem ser maioria.

Assim, quando o assunto é deficiência a sociedade ainda age com preconceito. Existem inúmeras leis que favorecem a inclusão, mas a tentativa de superar as práticas segregacionistas e a busca por igualdade de oportunidade são mais teóricas e formalistas, do que autênticas, pois é fato que a luta pela inclusão social não surgiu de uma prática cultural, mas de normas impostas. Por isso o processo de aceitar e exigir a inclusão social como um direito, ainda se apresenta imaturo na sociedade brasileira.
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Geraldo Nogueira é presidente de Honra da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência (OAB-RJ)