Gabriel Chalita: A irmã morte

Era Francisco, o santo de Assis, que chamava a morte de irmã. Demorei para entender o que ele queria dizer.

Por O Dia

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Rio - Era Francisco, o santo de Assis, que chamava a morte de irmã. Demorei para entender o que ele queria dizer.

Sou uma mulher de quem o tempo levou muitos sorrisos. Enterrei dois filhos. E, ainda ontem, no cemitério, cobri de flores a saudade que nunca deixou de ser dor. Quando eles morreram, ouvia nada do que me diziam. Vasculhava em mim os barulhos que me tentavam convencer de que não era a morte suficientemente poderosa para pôr fim a um sentimento tão grande.

Saíram os dois, um dia, para irem à escola. Fui eu quem preparou suas coisas. Ele se arrumava sozinho. Já era um homem feito aos 15 anos. Ela pedia minhas mãos para que os cabelos se ajeitassem. E assim se foram. E os últimos beijos no portão de casa. E o toque da campainha. E a notícia do assalto. E o choro mais doído de minha alma.

Eu tive três filhos. Permaneceu comigo a Mirela. E, hoje, sou avó de 5 netos. E não posso dizer que a alegria nunca mais se sentou comigo. Mas tenho que confessar que Miguel e Mariana estão aqui, nos meus pensamentos todos os dias. Os quartos demoraram para serem arrumados. Minha alma ainda vive o dual dos desarrumos com as novidades que chegaram. Sei quantos anos eles teriam hoje. Imagino como seria a nossa casa, se à mesa não coubesse tanto amor. Não poucas vezes, levo o choro para o interior do quarto e fico a me fazer perguntas.

Sou uma mulher de fé. Mas tenho dúvidas. Indaguei a quem achei que devia onde deviam eles estar. Sei que a morte não é o fim. Há mais do que o visível aos nossos olhos. Há um mistério nas estações. É por isso que o que morre no inverno ressurge pleno na primavera.

Conheço quem não acredita em nada. Antes, eu andava pelo dia escolhendo palavras para insistir que acreditassem. Era o meu jeito de acreditar também. De espantar a lentidão do dia, quando a saudade aumentava o seu volume.

Ouço o barulho dos meus netos e ouço a voz silenciosa dos meus filhos que faltam. Conversei, muitas vezes, com mães que, como eu, enterraram seus filhos. Sorrimos juntas para comum tristeza. Falamos do que faziam. E imaginamos o que não puderam fazer.

Lá se vão quase cinquenta anos sem eles. E o tempo vai me explicando que nos encontraremos em pouco tempo. O tempo da colheita não é o mesmo. Alguns se vão ainda perto do início. Outros cumprem um ciclo maior. Os entendimentos humanos são nada para entender. O que nos compete é viver.

Aos poucos, foi florescendo em mim o que Francisco queria ensinar ao chamar a morte de irmã. Ela existe. Ela virá. Não depende de nós decidir. Depende saber. E, sabendo, viver. A despedida de uma rosa não espanta a sua essência. Ela enfeita, enquanto está. E, quando não está, haverá outra rosa a dar delicadeza ao mundo. E é o seu perfume que distrai, inclusive os que não acreditam, das solidões.

A vida é bela. Eu sei disso. E soube reaprender a sorrir. Se vou ao cemitério, é mais por uma tradição. Miguel e Mariana já vivem no amor que nada é capaz de ferir ou desfazer. Mirela deu seus nomes a dois de seus filhos. Fiquei feliz.

Sou uma mulher feliz. Sei dizer o que falta, mas sei celebrar o que me preenche. Nos passos vagarosos de hoje, a lembrança traz mais sorrisos que lágrimas. Eram engraçados aqueles dois. Devem estar rindo juntos ainda.

Se a lágrima é uma delicadeza da dor, o sorriso é um sopro de beleza. Belo é poder lembrar. Lembrar é fazer permanecer. Nunca fui de acumular as maldades que me fizeram. Pouco falo sobre isso. Mas o que foi lindo continua em mim e continuará para sempre. Sou como Francisco, acredito que o fim é uma ideia que só existe na cabeça dos apressados.
*Gabriel Chalita é professor e escritor
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Gabriel Chalita, colunista do DIA Divulgação

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