Gabriel Chalita: Chegada e partida

Minha avó morreu em um dia de inverno. Agasalhei o meu choro de uma decisão: ir em busca da minha mãe

Por Gabriel Chalita*

Opina16fev
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Vou contar um pouco da minha história. Digo "um pouco", porque me faltam palavras e dias para compreender o que, até hoje, não compreendi. Porém, aceito. Como aceito o chegar e o despedir das estações. Não tenho escolha. O que hoje escolho é prosseguir. Sem muita busca de explicação. Sem julgamentos.

Quando nasci, a irmã de minha mãe veio em missão de ajuda. Deixou seus afazeres para socorrer a irmã que havia tido uma difícil gestação. Nem bem a ajuda nasceu e ela partiu junto com meu pai. Isso mesmo. Eu ainda ensaiava o abrir dos meus olhos, quando minha mãe usava os seus para chorar. Perdeu o marido e a irmã. E ficou comigo, necessitado de tudo. Como todos os que chegam. A dor do parto se tornou mansa diante da dor da partida.

A partir daí, fui crescendo. Minha mãe sucumbiu aos fatos e, também, partiu. Pediu à minha avó que olhasse por mim. Sem pai nem mãe, fui descobrindo a vida. As infâncias não são tão perfumadas quanto nos contam. Mas sobrevivi.

Viver com minha avó foi bom. Não posso dizer nada diferente. Ela empunhou a bandeira da paz e exerceu a delicadeza de não falar mal de ninguém. Sobre minha mãe, explicou, quando pude entender, alguma explicação que ela jamais me deixou de amar, mas precisou ir em busca de ar. Em outra parte.

Meu pai e minha tia se mudaram para perto. Portanto, com eles, eu convivi. Sem querer rabiscar a minha felicidade, vez ou outra, eu tentava imaginar a respiração da minha mãe. Por que nunca me procurou? Por que não voltou das buscas e buscou a minha presença?

Meu pai e minha tia tiveram outros filhos. Minha avó morreu em um dia de inverno. Agasalhei o meu choro de uma decisão: ir em busca da minha mãe. E foi o que fiz. Dediquei-me a investigar e descobri seu canto. E nos encontramos. Também ela teve outros filhos. Sua história se fez ao longe da minha.

O primeiro encontro foi estranho. Entramos em silêncio na casa e nos olhamos, tentando tatear o nosso amor. Fui eu que falei primeiro. Não fiz perguntas, mas ela me respondeu. Não me procurou por medo. Imaginou que minha avó tivesse preenchido a mente com narrativas incorretas. Soube que meu pai estava por perto. E julgou que não era necessária na minha vida. Pensou em mim sem pausas, disse ela. "Filhos não nos desgrudam". Ouvi. Disse que dela minha avó só havia dito bondades. Disse que meu pai e minha tia prosseguiam. Disse que eu queria esquecer as ausências e usar o tempo que nos restava para sentarmos juntos. Ela chorou. Chamou os outros dois filhos que teve. Falou de mim. Do seu orgulho à distância. Do meu pai e da escolha que teve. Falou sem ódio. Apenas, narrando. Falou da única irmã, também, sem julgamentos. Quem sabe as razões de cada um? Meus irmãos me olharam com curiosidade. Sabiam trechos esparsos da história. Sem a rotina, é difícil desenhar os afetos. Estranhos sentimentos em nossa estranha história. Mas a decisão não era a de ir buscar? Mesmo com as diferenças, mesmo com as distâncias?

A casa de minha mãe fica muito longe da minha. Ela não tem a disposição de voltar. Saiu levando, apenas, o choro e se fez em outro canto. Não posso deixar o onde vivo e mudar de vida. Mas posso me aproximar. Posso visitar. Posso falar. Posso reacender o que o tempo disfarçou.

No fim do primeiro dia, já éramos, novamente, mãe e filho. Já substituíamos o silêncio por risos e por curiosidades. Ela quis saber de cada dia da minha vida. E eu contei como pude. E eu percebi interesse. Pouco tempo tivemos para que ela falasse da sua vida. Mas durmo aqui, hoje. E, amanhã, continuamos. Sei que meus sonhos estarão sobressaltados.

Fico imaginando o dia da dor. Ela, comigo no colo, e alguém dizendo da partida. Ela partindo. Não. Não digo isso tudo para cultivar o sofrimento, mas para exaltar a superação. Minha mãe é uma mulher feliz. Cresceu no abandono e sobreviveu.

Amanhã, vamos continuar. E, também, depois de amanhã. O tempo das distâncias dará lugar ao tempo do encontro. Se algo se perdeu, paciência, a paz que, agora, sinto é o que importa para os novos dias que virão. Acompanhados.
*Gabriel Chalita é professor e escritor
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Gabriel Chalita, colunista do DIA Divulgação

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