Geraldo Peçanha de Almeida: Felicidade não é um bem material

Hoje é comemorado o Dia Internacional da Felicidade, uma boa oportunidade de refletirmos sobre esta metáfora

Por Geraldo Peçanha de Almeida*

Geraldo Peçanha
Geraldo Peçanha -
Talvez este entendimento possa resolver boa parte dos problemas que nós temos em relação à felicidade: ela não é bem. Diante desta constatação, concluímos que não se pode adquirir, comprar, manter, negociar. Ela é construção e, como tal, infinita, que perdura pela vida inteira.

Qualquer um que tenha um mínimo de percepção, já notou que ao ligar a televisão o assunto é a busca pela felicidade. Em programas de televisão, revistas, livros de autoajuda e conversas informais o assunto felicidade tomou a dianteira. Fico pensando que a humanidade está tentando se convencer que a vida só vale a pena se a felicidade estiver presente o tempo todo. Aqui paremos em pensemos: é possível ser feliz todo o tempo? Não. Qual felicidade daria este tempo todo de alegramento? Nenhuma. A felicidade para todos é a mesma coisa? Não. Somente nestas três perguntas todos nós já concluímos a incapacidade de algum ser humano viver esta plena felicidade full time. Aliás, esta condição me faz lembrar do malabarista do circo, que coloca os pratos na ponta da vara e precisa ficar girando-os para que não caiam. Enquanto ele gira os pratos lá estão, mas se ele parar de girar caem e se quebram.

Hoje é comemorado o Dia Internacional da Felicidade, uma boa oportunidade de refletirmos sobre esta metáfora. Se você tem uma felicidade, mas essa precisa do mesmo movimento do malabarista, preste atenção, isto é sofrimento e falta de liberdade. Você tem uma “felicidade” movida por seu desejo. Ele e seu ego dizem: Eu gosto disso! E por só ouvir seu desejo você segue girando o prato na ponta da vara, independente do quando te energia isso lhe cobra ou do quando de cansaço isso te traz. Se você parar o giro, aquilo que você tanto acha que é, deixa de existir porque se torna real a partir do consumo de sua força.

A felicidade existe, sim, claro! Mas ela é espontânea, surge de causas e condições que a sua vida vai edificando, ponto por ponto, parte por parte. Do trabalho vem um ponto da trama, da escolha por relacionamento ou não saio outro ponto e assim, nos estudos, nas relações sociais, nas causas sociais e políticas, na religião e nas tantas outras dimensões da sua trajetória. De cada escolha sai um ponto que ajuda dar sustentação à trama chamada vida feliz. Se você escolhe participar de diversas dimensões da vida, mais pontos você tem e sua trama vai criando corpo e sustentação. Ao mesmo tempo que você cria robustez pela quantidade de pontos da sua trama você acaba descobrindo que cada um desses pontos de vida precisa de ajuste. Às vezes você precisará apertar um ponto aqui e outro acolá ou afrouxar vários pontos e assim, segue, numa construção eterna de gerenciar sua trama de sustentação, de vida plena, de felicidade que é oriunda da vida compartilhada.

O contrário disso é preocupante. Se uma pessoa coloca o fim nela mesma a felicidade começa a ficar complicada, pois se não há nenhum outro ponto de sustentação, de onde virá a trama da vida? Quem vai sustentar o seu caminhar? Um ponto sozinho não faz trama, faz drama. Viver isoladamente, como se o mundo fosse o entorno do seu próprio umbigo é a decretação a aceitação da infelicidade.
*Geraldo Peçanha de Almeida é psicanalista

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