Luís Pimentel: Elza Soares: todos os prêmios para ela

Homenageada pela Mocidade de Padre Miguel, a cantora Elza Soares emocionou e comoveu a Sapucaí

Por Luís Pimentel*

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O Carnaval 2020, que acabou de acabar, promoveu oportuno resgate da música do gênero, com a volta de belos e criativos sambas de enredo. E ainda reverenciou uma personalidade marcante de nossa cultura popular, que há muito fazia por merecer. Homenageada pela Mocidade de Padre Miguel, a cantora Elza Soares emocionou e comoveu a avenida, foi aplaudida do início ao fim do desfile de sua escola e recebeu prêmio máximo como Personalidade do Ano.

Para Elza, todos os reconhecimentos são e serão merecidos. Cidadã do mundo, do subúrbio e da Zona Sul do Rio de Janeiro, da infância em favelas, com latas d´água na cabeça, ao sucesso explodindo mundo afora, recebendo elogios de quem conhece o seu ofício, Elza é de todos. Já me disse em uma entrevista, para a revista Música Brasileira: “Degustei lágrimas como quem degusta vinho. Sei o gosto que elas têm”. Não foi apenas uma frase de efeito. Quem conhece um pouco de sua história sabe que ela comeu o pão que o diabo amassou, antes de brilhar tão lindamente na Sapucaí.

Elza Soares, uma das mais brasileiras entre as cantoras brasileiras, continua cantando melhor do que nunca. Possui recursos vocais personalíssimos, arrancando as sílabas da garganta como se quisesse estourar as veias do corpo. Parece que “rói do cóccix ao pescoço”, como no verso da música que Caetano Veloso escreveu para ela e que virou título de um dos seus mais belos CDs.

Outro que homenageou lindamente a garra da cantora, seu som em fúria, foi Chico Buarque. Lembrou o craque dos craques, na canção Dura na queda: “Apanhou à beca, mas pra quem sabe olhar/A flor também é ferida aberta/E não se vê chorar”.

Do velho 78 rotações ao CD, são mais ou menos 100 discos gravados, no Brasil e no exterior (está lançando mais um!). Nos EUA, resolveram examinar sua garganta e concluíram que as cordas vocais eram defeituosas. Um defeito perfeito. “Armstrong ficou deslumbrado quando viu que termino de cantar e falo normalmente, que esse som é puro efeito vocal. Ele me chamava de filha espiritual”. Não vai nesse depoimento nenhum excesso de vaidade. Simples relato.

O sucesso enorme que fez com músicas como Mulata assanhada, Se acaso você chegasse, Língua, Malandro, Cadeira vazia etc., não mudou sua estrada, desde o início para cima:
– Sou uma poderosa. Vitoriosa quatro vezes: mulher, negra, estrela e gostosa.

Diz o último verso da canção do Chico: “O sol ensolará a estrada dela...”. A estrada sempre esteve ensolarada. Elza Soares é a verdadeira guerreira da luz. Para ela, todos os prêmios. Hoje e sempre.

*Luís Pimentel é jornalista e escritor

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Luís Pimentel, colunista do DIA Divulgação

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