Gabriel Chalita: Para onde olho

Acordei, hoje, pensando no meu marido. Pensar nele não dói. O tempo foi transformando sua ausência em uma presença constante de amor

Por Gabriel Chalita*

Gabriel Chalita, colunista do DIA
Gabriel Chalita, colunista do DIA -
Faz algum tempo que estou por aqui. Sou bem tratada. Médicos e enfermeiros se desdobram para que eu volte a ser quem, um dia, eu fui.

As doenças nos interrompem. Nos trazem pausas. E algumas podem nos levar. Não. Ainda não quero ir. Tenho muito para ver. Gosto de ver a vida que passa por mim. Gosto dos meus. Ficam, meus filhos e netos, disputando quem é capaz de me fazer sorrir mais. Gosto dos risos, embora tenha me acostumado a chorar. Viver é se equilibrar nesses dois passos. A dor e a alegria.

Olho para os lados e vejo os aparelhos ligados. Não entendo muito. Mas confio. Do que entendo, fico calma. Das pessoas. Cada um que, de mim, se aproxima traz um olhar bom de quem sabe que preciso deles para voltar a caminhar com os meus próprios pés. Mesmo que mais vagarosos. Mas, ainda assim, meus.

Quando durmo, sonho. Quando acordo, prossigo sonhando. Não sou uma mulher de desistências. Enfrento as doenças como enfrento os pessimismos. Vou adiante. Lutando com a braveza que desenvolvi em tantos embates. Acho graça, quando dizem que basta me virar para o lado direito que me acalmo e adormeço sorrindo. Sabem nada das minhas razões. Eu conto.

Sou uma mulher que cultiva a gratidão. E que dialoga a gratidão com a saudade. Meu marido se foi há algum tempo. Que marido tive! Que homem único! Um cultuador das delicadezas, um romântico em ação ininterrupta, um amor que não se encontra, a não ser por bênçãos. Fui abençoada, desde os primeiros toques. Fui abençoada, também, nos choros. Perdemos vidas que, juntos, geramos. Dois filhos se foram, enquanto chorávamos a incompreensão. Juntos, nos amando no pranto. Juntos, nos amando em noites em que o tempo não foi capaz de suspender as emoções. Era ele um menino, aos oitenta. Posso garantir. E querem saber por que eu me pacifico, quando me colocam deitada pelo lado direito? Falo sem cerimônias. Era assim que dormíamos. Eu gostava de dormir, enquanto o via. Nos fitávamos enlaçados. Nos encostávamos com tatos delicados de boa noite. E, assim, os meus olhos intervalavam a sua face descansada com o sono que ia me conduzindo. E, assim, mais um dia se despedia.

E o que chegava nos encontrava com o mesmo sentir. Seu beijo matinal me fazia relembrar o gosto bom da vida. E, juntos, nos levantávamos para enfrentar o dia. Foram anos, foram décadas de um olhar assim. Agora, ele não mais está. Mas, se perguntam para onde olho, respondo, "para o lado que me lembra o quanto de belo tenho para lembrar. E que me ensina que, ao lembrar do que foi, fico mais forte para querer continuar a olhar".

Minha neta sorri para mim, quando pergunto sobre a data do casamento. Ela e o noivo me querem no altar. Eu também quero estar. Esperam a minha recuperação para estar com eles. Minha bisneta já fala da formatura. Eu quero estar, também. Eu vou estar.

Meus dois filhos brincam, querendo saber quem é o mais amado. Ora, meu coração - que já mostrou à doença que é mais forte do que ela - é aconchegante o suficiente para irrigar sentimentos suficientes para envolver os dois, frutos do meu amor. Os dois que permaneceram comigo no entardecer da minha vida. Que fique claro que, quando falo em entardecer, não falo em despedida. Não tenho pressa nenhuma de partir. Gosto do que construí e sou grata por me sentir tão amada.

Parece estranho precisar que outros nos deem banho, que outros nos mudem de um lugar para o outro. Parece e é. O bom é não precisar adoecer. Mas, nesses momentos de fragilidade, nos lembramos também de que é assim o viver. Uma troca. Um ajudar contínuo. Uma paciente entrega.

Acordei, hoje, pensando no meu marido. Pensar nele não dói. O tempo foi transformando sua ausência em uma presença constante de amor. Ele está junto de Deus, eu sei. E de lá, ele olha por mim. E continua me amando. E mais não vou dizer.
Os mistérios desafiam os que acham que sabem tudo. Não preciso saber, preciso sentir e, sentindo, acreditar.

Uma moça que faz a limpeza do quarto onde estou, invariavelmente, me olha e faz uma oração. No domingo passado, foi o dia da mulher. Meus filhos entregaram doces, flores de chocolate em gratidão ao que fazem por mim. Ela, também, ganhou. E chorou de emoção. E cantou um canto religioso pedindo bênçãos. Assim vou passando esses dias. Entre sonos e sonhos, lembrando o ontem e desejando estar nos amanhãs daqueles que amo e que, de mim, cuidam sem reclamar.

Estava sonolenta olhando para o lado que gosto, quando ouvi os meus netos disputando para ver quem dormiria comigo naquela noite. A isso, dou o nome de felicidade; o resto, o tempo, os médicos, resolvem. E Deus, naturalmente, a Quem agradeço todos os dias por dias tãos bons.

*Gabriel Chalita é professor e escritor

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