Como o coronavírus contaminou a política internacional

Mais do que um retrocesso na globalização, vemos um internacionalismo inflexível tal como no desfecho da Segunda Guerra Mundial, tanto em matéria de relações internacionais como em matéria econômica.

Por Diana Vasconcellos*

Diana Vasconcellos
Diana Vasconcellos -
As palavras do Papa Francisco: "Ninguém se salva sozinho" nunca fizeram tanto sentido. Creio que a natureza humana nos tenha condicionado, tanto como indivíduos como estados, na primeira fase desta pandemia. O instinto de preparar, recolher recursos e estar pronto para o apocalipse, assemelha-se ao instinto de hibernação. A citação de Game of Thrones, 'Brace yourselves, winter is coming'(Preparem-se, o inverno está chegando), aplica-se perfeitamente à forma como encaramos a fase inicial da pandemia. Depois a bomba caiu, a fumaça baixou e começamos a ver as coisas com mais clareza. Compreendemos que, afinal, ninguém se salva sozinho.
Tal como nós, os países naturalmente deram respostas iniciais sozinhos, sem coordenação internacional. Essa resposta inicial levantou a hipótese de que a globalização como a conhecemos estaria próxima do fim. Penso que mais do que um retrocesso na globalização, vemos um internacionalismo inflexível tal como no desfecho da Segunda Guerra Mundial, tanto em matéria de relações internacionais como em matéria econômica. A fase de isolamento que vivemos será seguida por um momento de abertura e cooperação, ainda que esse seja menos orgânico do que parecia ser no passado. Serão utilizadas estruturas internacionais que regem mecanismos de ajuda. Afinal de contas, não foi para atenuar momentos como este que as organizações, fundos e alianças internacionais foram criadas? De fato, as doenças infecciosas foram um dos primeiros problemas que os países entenderam que não podiam resolver sem cooperação internacional. Em 1851 os países europeus reuniram-se para a primeira Conferência Sanitária Internacional onde foram discutidos os custos econômicos e de saúde impostos por doenças como a cólera.
Como o coronavírus contaminou a política internacional - Arte O Dia
As Nações Unidas declararam a pandemia do coronavírus a ameaça à humanidade mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. Só o impacto econômico nos Estados Unidos deverá exceder qualquer acontecimento desde o período de guerra. Para o resto do mundo, o cenário deverá ser igual ou pior. Daqui, decorre que o principal objetivo da política econômica de qualquer estado afetado deverá ser: impedir o colapso social. As economias ocidentais são sustentadas numa classe média sólida e alargada. Essa é a classe que mantém a demanda elevada, sem a qual as empresas não sobrevivem. Por exemplo os gastos dos consumidores globalmente representam cerca de 70% do PIB. Neste momento, a classe média está em risco de empobrecer e esse problema deve ser tratado na sua origem. No entanto, o segmento mais sacrificado é, sem dúvida, a classe baixa. Esses são os primeiros a perder os seus postos de trabalho, as suas poupanças e a esperança. Tendo isso em conta, procuro reforçar que a recuperação das economias exigirá a produção de mecanismos de ajuda direcionados à classe baixa e à classe média.
Em matéria de geopolítica, por norma as crises tendem a agravar conflitos existentes e exacerbar as tensões. O fato é: Wuhan só entrou em quarentena sete semanas após o aparecimento das primeiras pessoas infectadas. Vários erros foram cometidos por parte da China entre novembro e fevereiro. Na tentativa de remediar a situação, o país oriental têm procurado persuadir o seu povo que o modelo adotado pelo seu governo foi superior aos ambientes democráticos no combate ao vírus. O argumento chinês baseia-se no fato de que morreram mais pessoas nos EUA, na Itália e na França do que na China. Mas essa campanha chinesa, dentro e fora das muralhas, não convence os ocidentais, por mais máscaras que enviem para o Ocidente. O que falhou nos Estados Unidos não foi a democracia, foram as políticas adotadas. Falharam porque não agiram suficientemente rápido nos primeiros momentos.
Para os Estados Unidos e para os seus aliados da OTAN, o alastramento do coronavírus foi a maior falha de inteligência desde o 11 de setembro. O ex-diretor da CIA, George Tenet, revelou que no verão de 2001 múltiplos fluxos de informação da comunidade de inteligência indicavam um ataque terrorista de aviação em solo americano. Os avisos foram ignorados. No fim de março deste ano, o Washington Post noticiou que constantes alertas sobre o coronavírus foram apresentados pela comunidade de inteligência à Casa Branca entre janeiro e fevereiro. Ainda assim esses alertas, mais uma vez, foram negligenciados. A indiferença da Casa Branca, líder do mundo livre durante os estágios iniciais do surto, poderá vir a estar entre as decisões mais caras das presidências modernas.
Os Estados Unidos não estão sozinhos no mundo, nem foram os únicos a errarem. Na Síria, de certa forma, a guerra continua. António Guterres, secretário geral da ONU, apelou a um cessar-fogo global e imediato para combater a pandemia de forma mais eficaz. Ainda assim, o cenário continua assustador. Bashar al-Assad não revela os números reais de vítimas e é acusado de não implementar cercos sanitários para impedir que o vírus se espalhe pelas zonas rurais e pelos campos de refugiados. Não preparou o estado para a nova calamidade que atinge a região. Mas será que Assad tem realmente interesse em impedir o avanço da pandemia? Poderia ser uma vantagem destabilizar os rebeldes: infectados, a morrerem e sem recursos para tratar dos seus.
Na América do Sul, Jair Bolsonaro e Nicolás Maduro foram ridicularizados após os seus tweets serem apagados por alegada desinformação. Porém, essa desinformação não parte de ignorância, é o resultado de uma campanha que procura fechar os olhos à pandemia e restabelecer a normalidade. No caso do Brasil, um rombo na economia poderá representar o fim do governo Bolsonaro. Esse impacto é agonizado pelo fato de algumas das maiores empresas do Brasil, em setores estratégicos, serem controladas pelo estado. Essa estrutura transforma totalmente a forma como a política econômica é perspetivada. O que será mais importante? Espalhar um vírus que já é pouco controlável ou deixar ruir um pilar fundamental à existência do estado brasileiro tal como ele é hoje?
Mas nem tudo é ruim, tanto os israelenses como os palestinos têm sido aplaudidos por oficiais da ONU pela sua cooperação nos esforços contra o coronavírus nas áreas da Judeia e da Samaria. Essa cooperação é, à luz da lei internacional uma obrigação, e para Israel uma oportunidade inegável. Não obstante, são esforços sem precedentes que marcam um momento histórico para a região. Talvez esse seja o primeiro momento em que ambos, Israel e Palestina, estão em pé de igualdade num momento em que enfrentam um inimigo comum.
A aliança da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e do governo do Iêmen anunciou que observaria um cessar-fogo unilateral de duas semanas na guerra no Iêmen. Por sua vez, o grupo rebelde do Iêmen, os Houthi, declarou que não aceitará o cessar-fogo até o cerco à região ser levantado. O cessar-fogo procura cumprir três objetivos: prevenir um surto de coronavírus no Iêmen, permitir um abrandamento da escalada do conflito e permitir que os houthis participem de negociações patrocinadas pela ONU. Tendo em conta que esse conflito é uma 'guerra por procuração' entre o Irã e a Arábia Saudita a paz torna-se um conceito longínquo. Contudo, se os houthis aderirem ao cessar-fogo essa medida poderá abrir caminho para o fim desse conflito desumano que foi berço de genocídios e já fez mais de dezenas de milhares de vítimas.
Ocorreram várias mudanças no cenário geopolítico nos últimos anos. Contudo uma realidade persiste: a ação global multilateral é largamente conduzida pelos Estados Unidos. São eles que mobilizam as nações para a ação. Ação essa que será impossível se o país continuar se omitindo. Ou os Estados Unidos retomam o seu lugar ou alguém o preencherá por eles. Esse é também um momento de oportunidade para novos ou velhos poderes reforçarem a sua influência ao ajudar a sua região. Por exemplo, países como a Índia e o Brasil devem inverter a equação do momento a seu favor para o benefício de todos.
Em termos de saúde pública, somente um investimento nas áreas de prevenção e de acesso universal poderá contribuir para uma resposta futura mais adequada. No caso do Brasil, ainda que pouco provável, uma arquitetura federal mais liberal e robusta, com o potencial de oferecer soluções coordenadas, seria imperativo para responder a futuras crises. No fim retiro duas lições universais: a vida é o maior dom de todos, e ninguém se salva sozinho.
*É pós-graduada em Diplomacia e licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Uiversidade Católica Portuguesa.

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