Lourival Panhozzi: Quando a morte faz reverência a vida. Todos se calam.

Tradicionalmente, ninguém gosta de falar de morte, mas neste momento não existe escolha, a indesejada Libitina chegou, ela está na porta, mas podemos adiar sua entrada, se todos nos unirmos

Por Lourival Panhozzi*

Lourival Panhozzi
Lourival Panhozzi -
A atividade funerária é uma linha de atuação da qual ninguém, ou quase ninguém, que está no comando das decisões nos governos, tem lembrado. Vamos precisar gritar mais alto, todos em coro, se queremos ser ouvidos. Tradicionalmente, ninguém gosta de falar de morte, mas neste momento não existe escolha, a indesejada Libitina chegou, ela está na porta, mas podemos adiar sua entrada, se todos nos unirmos.

Nestes tempos extraordinários e preocupantes, muita atenção está sendo prestada (com razão) aos serviços de "linha de frente" - aquelas pessoas que não podem ficar em casa em isolamento, que estão trabalhando em nossos hospitais, farmácias, cadeia de suprimento de alimentos, serviço postal e muito mais para manter o país funcionando - muitas vezes com grande risco para si mesmos.

Como toda sociedade, prestamos reverência especial, novamente com razão, aos médicos e enfermeiros, que trabalham em condições cada vez mais estressantes, tendo que até mesmo se isolarem de seus próprios membros da família enquanto cuidam dos outros.

Um grupo vital, que, no entanto, até agora esteve visivelmente ausente das discussões públicas é a força de trabalho funerária - as pessoas que cuidam dos mortos. O governo até agora anunciou algumas medidas ao segmento, mas foi só isto. Esqueceu que apenas linhas escritas não resolvem a dimensão dos problemas que o setor poderá enfrentar e até mesmo causar, se não for ouvido nas suas necessidades básicas.

Precisamos ser vistos, não por mérito, mas por sermos vitais, como atividade "chave" na solução do efeito, de um problema que os governos não irão conseguir resolver, que é a produção de vítimas.

Não queremos ser vistos como heróis, mas somos parte de um problema que só nós temos a solução. Antes de nos impor normas desconectadas da nossa realidade, nos ouçam. Não deixaremos de cumprir as determinações, mas queremos fazer isto com segurança e sem causar um mal maior as famílias. Elas já estão perdendo o principal, não precisamos tirar delas mais nada. Precisamos sim garantir um último adeus dignos a seus entes queridos.

A realidade da pandemia de coronavírus para o setor funerário é que não apenas a carga de trabalho e o estresse relacionado irão aumentar. Esta nova condição, que potencialmente nos colocaram, bem como, a nossas próprias famílias, de um risco eminente está causando um dano que ainda não podemos dimensionar.

Os profissionais do setor funerário brasileiro, levam o trabalho que realizam extraordinariamente a sério, são longas e duras horas de dedicação, têm eles o hábito de negligenciar sua própria saúde e bem-estar neste processo. Neste momento, é ainda mais importante do que nunca, preservar sua condição de saúde e laborativa, são eles essenciais não apenas a sociedade, mas também às suas famílias. Tenho orgulho de ser diretor funerário. Sou um aficionado pela vida e a morte é a maior expressão de que ela é bela.
*Lourival Panhozzi é presidente da Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário (ABREDIF)

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