Lis Vilaça: A pandemia como chamado: o que Neo, Forrest Gump e você têm em comum?

A cada novo desafio, somos convidados a sermos heróis de nossa própria história, aceitando o chamado que a vida enseja

Por Lis Vilaça*

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Ao longo da história da humanidade, diversas sagas foram contadas seguindo uma mesma lógica. Ao pesquisar mitos, e lendas, o professor Joseph Campbell percebeu algo semelhante nas narrativas e formulou uma estrutura de eventos chamada a jornada do herói, no livro O herói de mil faces, de 1949. Esse livro, que serviu de base para vários filmes, dá conta do processo de autodescoberta de seus protagonistas, mas também pode nos convocar a viver a pandemia mais conscientes de que há um trabalho a ser feito.

O médico suíço Carl Gustav Jung considerava que é preciso buscar um propósito para a vida: um esforço de nos tornarmos quem somos. O herói representa a nossa busca por essa identidade. Desse modo, a jornada descrita por Campbell se assemelha às etapas da existência humana. Uma dessas etapas é o “chamado à aventura”, que parece ironicamente remeter ao momento em que vivemos, de pandemia. É quando esse herói é convocado a abandonar um mundo conhecido e adentrar em uma realidade imprevisível, que poderá lhe custar a vida, física ou existencial. Esse chamado, que nos convida a quebrar a rotina e inventar novas formas de estar no mundo, promove uma transformação.

Em Matrix, Neo (Keanu Reeves) recebe uma mensagem para seguir o coelho branco, uma referência ao coelho de Alice no país das maravilhas, que os leva para outra dimensão. Em Frozen II, Elsa ouve uma voz misteriosa e a segue até uma floresta cercada por uma névoa densa. Em Melhor é impossível, Melvin (Jack Nicholson), um homem taciturno e reservado, é convocado a tomar conta do cachorro do vizinho e passa a estabelecer uma relação mais saudável com as pessoas que o cercam. Já em Antes de partir, o chamado à aventura é representado pelo adoecimento dos protagonistas que, dividindo o mesmo quarto de hospital, decidem criar uma lista para experimentar o que ainda não viveram.

Para Campbell, o que diferencia o herói e o homem comum é a aceitação do chamado. Ao final da jornada, esse herói retorna transformado ao mundo que havia deixado: fortalecido e com autoconhecimento para enfrentar novos desafios. Em Harry Porter e a pedra filosofal, o bruxinho retorna para a casa dos tios, ao final do ano letivo em Hogwarts, ciente de seus poderes. Em Forrest Gump, a cena final é idêntica à inicial: uma pena flutua no ar. Fecha-se o ciclo e um novo está a ponto de começar. A cada novo desafio, somos convidados a sermos heróis de nossa própria história, aceitando o chamado que a vida enseja. Boa jornada.

*Lis Vilaça é terapeuta junguiana e mestre em Psicologia

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