Gabriel Chalita, colunista do DIA - Divulgação
Gabriel Chalita, colunista do DIADivulgação
Por Gabriel Chalita*
Fui eu que pintei esse quadro. Sim. É minha mãe. Uma metade é o seu olhar, quando se casou com meu pai. A outra, é do último dia em que ela cantou. Foi um pouco antes de entrar em cena. E, depois desse dia, foi silêncio.

Também sou cantor. Ensino o canto como uma chama que desaloja de mim qualquer sentimento menor. Quando canto, me despeço das exterioridades e me integro à minha alma interior. Sou eu e a eternidade. Sou eu ou a partícula de mim que se une ao cosmos gigante de luzes e de sons que deslocam o tempo, para qualquer tempo no espaço, onde canta um cantador. É por isso que ouço o ontem, a voz de minha mãe, que se calou há algum tempo.

Eu era pequeno e a via fazendo os exercícios de voz. Ia com ela ao teatro e apalpava, com a minha pupila, cada gesto que a maquiava para entrar em cena. Respeitava o seu respeitoso nervosismo. O público merecia encontrá-la inteira. Gostava de ver os aplausos em cena aberta. Os ditos extasiados que exclamavam que, ali, brilhava uma estrela. E, então, corria para a saída do teatro para ler, nos olhares e nos dizeres, o que, de minha mãe, eles levavam para as suas vidas.

Meu pai não parecia se integrar a esse mundo tão aquecido. Era frio, quando tentava ela narrar o dia. Era ausente nas estreias. E se fazia incomodado nas demoras. Ela chegava com os aplausos na alma e se deitava na solidão acompanhada. É o que posso dizer quando apalpo o corpo nu da memória. Não condeno meu pai. A armadura que ele usava foi a única que conseguiu. E, então, os abraços necessários se perdiam.

Um dia, a voz de minha mãe falhou. Era noite. Triste noite interminável. Deixou os camarins para viver a arrumação da casa. Varria, todo dia, toda a tristeza do mundo. E limpava cada pedaço da sujeira daquele chão. Eu não compreendia o seu silêncio. Fui crescendo e fui cantando. Ela me via ao piano e dizia nada. Eu sonhava uma aprovação. Nada. Apenas os seus olhos nos meus olhos confundindo os meus sentimentos.

Um dia, finalmente, a convidei para voltar aos palcos, dirigida por mim. Disse nada. E aceitou. Foram algumas apresentações, apenas. Quatro. Como a totalidade dos gregos, a tetragonalidade. E, no último dia, depois dos aplausos que pareciam invadir a solidão do mundo, depois dos entusiasmos que alimentariam qualquer artista, ela me olhou e disse: "Foi por você, meu filho, e foi a última vez". Eu não entendi, e ela concluiu: "Nunca mais vou cantar". Foi nesse dia que tirei a foto que serviu de modelo para a parte direita do quadro. A outra, como disse, foi no dia em que subiu ao altar.

Morreu minha mãe, pouco tempo depois. No velório, deixei as músicas cantarem. No sepultamento, cantei eu, entre soluços e gratidão.

Canto, hoje, canções tantas que dela ouvi. Deito em seu passado misterioso. Em suas escolhas silenciosas e choro sozinho. Meu pai, também, se foi. Pouco depois da morte da minha mãe, eu o vi ouvindo os seus discos, segurando sua foto e chorando. Ouvi um cantarolar bonito como se cantasse ele as mesmas músicas que ela, só que pra dentro.Fiquei pensando no que faltou ser dito, no fogo escondido que não a aqueceu. Ele a amou profundamente, mas não conseguiu tirar do poço, da fundura de sua alma, uma água que espantasse a sede demorada de minha mãe.

É o que penso sem ter o poder nem o direito de decidir o passado. Isso tudo faz tempo. Hoje, os dois moram em mim. E, também, esse quadro. E essa vocação para silenciar apenas nas pausas entre uma e outra canção.

Na aridez do mundo, eu canto. Nos estranhamentos entre pessoas, eu canto. É a herança que recebi e que ouso deixar. Para acalmar as diferenças, para alimentar de sagrado os dias comuns. A música é a expressão da leveza de Deus na elevação dos homens. É o tempero que mergulha em nossos sentimentos e que nos retira sorrisos e nos apresenta o amor.

Deus é ternura.
*Gabriel Chalita é professor e escritor