Regina Pinho: As lives e os livros

Dos jornais mais assistidos nas TVs às entrevistas com famosos e especialistas, o livro geralmente está presente

Por Regina Pinho*

Regina Pinho
Regina Pinho -
Nunca convivemos tanto com livros! No atual mundo de excepcionalidade pandêmica, onde passamos o dia nos conectando com o outro através de uma tela, sejam conversas pessoais, reuniões profissionais, aniversários, festas, entrevistas, depoimentos ou lives, encontramos a mais variada gama de lombadas e,
algumas vezes, capas de livros, como cenário de múltiplos e diferenciados temas. Dos jornais mais assistidos nas TVs às entrevistas com famosos e especialistas, o livro geralmente está presente, às vezes substituindo ou complementando obras de arte ou uma flor, preferencialmente orquídeas.

O que podemos apreender dessa escolha espontânea de pessoas diversas nos seus modos de pensar, abordando questões das mais diferenciadas, quando escolhem livros para compor a publicização de suas imagens. Quando as pessoas convidam o público para conhecerem seu espaço privado, uma parte de sua casa, o que significa a escolha preferencial pelas estantes e livros. Qual o valor do livro na nossa sociedade atual? Antes, durante, depois da pandemia? 

As lombadas são coloridas, enfeitam o ambiente. Fazem um fundo alegre, mas também e talvez principalmente dão um toque intelectualizado ao sujeito em primeiro plano. Esse deve ser o motivo: ao se colocar na frente de uma estante, o sujeito escreve na sua imagem ser um leitor, um intelectual. Ser leitor é ter status social. Mas se isso está posto e referendado toda hora nas grandes, médias e pequenas telas que nos cercam cotidianamente, porque existe uma proposta de reduzir a isenção de impostos sobre a compra de livros. Por que não é importante existir uma política pública de acesso ao livro e à leitura? Que leituras podemos fazer sobre essas aparentes contradições?

Se a impressão que dá é de que livro não é objeto de primeira necessidade, não é essa a concepção do Sesc. Temos no Estado do Rio de Janeiro 14 bibliotecas fixas e 4 bibliotecas móveis, os BiblioSescs, com acervo atualizado e disponibilizado gratuitamente para todos. Proporcionamos às crianças, jovens, adultos e idosos o acesso a esse objeto que persiste desde a Idade Média como lugar de conhecimento e fruição.

Mesmo com a internet, a grande rede de conhecimento e pesquisa da atualidade, o livro, mesmo o de papel continua tendo lugar de destaque, principalmente pelo seu custo e fácil acesso. Ele não precisa de energia nem conexão para ser lido. Basta abri-lo. Fora as sensações psicológicas ao segurá-lo, admirar sua estética e poder possuí-lo.

Mesmo durante o período de isolamento social, com nossas bibliotecas fechadas, o Sesc mantém o contato com seus diferentes públicos, indicando leituras, propondo experiências virtuais, criando clube de leitores, estimulando escritas diversas e novos escritores. Entendemos que o custo de afastarmos o interesse à leitura da população é irrecuperável. Especialmente nesses tempos em que precisamos identificar o que é essencial à vida humana, além das aparências, dos objetos cenográficos que são utilizados para compor nossas imagens, reais ou virtuais.
*Regina Pinho é diretora regional do Sesc RJ

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Regina Pinho Marco Terranova
OPIINA15SET ARTE KIKO

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