Marcos Espínola: No descompasso da democracia

O tempo passou e mais de três décadas depois os fatos nos mostram que perdemos o tom, o rumo e estamos à deriva

Por *Marcos Espínola

Opina 02 setembro
Opina 02 setembro -
O simbolismo da democracia brasileira ficou marcada pelo movimento nacional das Diretas Já. Foram inúmeros comícios com a presença de personalidades de todas os segmentos da sociedade. Afinal, foram 20 anos de ditadura militar, na qual muita coisa aconteceu para o bem e para o mal. Diante desse tema polêmico, o fato é que a liberdade foi reconquistada, essencialmente a de expressão, tão reprimida nos anos de chumbo.
Redemocratizou-se o país e, historicamente, uma nova Constituição, a de 1988, foi promulgada. Tudo caminhou na direção que a maioria entendia ser a melhor para o crescimento do país e uma sociedade mais justa. Mas não foi bem assim.

O tempo passou e mais de três décadas depois os fatos nos mostram que perdemos o tom, o rumo e estamos à deriva. E a reflexão que pretendo passa longe de polarizar um lado ou outro. Aliás, esse formato, potencializado nos últimos anos, já representa os efeitos dessa falta de diretriz que o Estado democrático de direito nos possibilitou.

Com pouco mais de 500 anos, o Brasil comprovou que não tinha maturidade para usufruir da democracia. O ranço do passado ainda predomina e seja de um lado, no centro ou de outro, a percepção é de que todos não sabem como fazer para solidificar uma sociedade que possa fazer jus ao lema da bandeira nacional: ordem e progresso.

Descobrimos também que os extremos representam o perigo de assumir uma verdade que nos cega. Nos impossibilitam de pregar uma das premissas da democracia que é ouvir o outro e, principalmente, promover o diálogo. Quando não se consegue isso, a cidadania passa a ficar comprometida, pois o viés passa a ser tudo para o meu grupo e nada para aqueles que pensam o oposto.

Caminhamos e, sim, evoluímos, porém muito aquém do que podíamos e deveríamos. Estamos inseridos no mundo globalizado. Acessamos as novas tecnologias e em muitas áreas somos referências. É verdade, o país do futebol é também destaque em várias áreas da medicina, matemática, entre outras. Temos talentos e qualidade para exportar. Entretanto, somos donos também de recordes vergonhosos, como o alto índice de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria. Famílias com moradias precárias e sem saneamento básico. E tantas outras mazelas.

No geral, a grande luta para trazer de volta a democracia ao país trouxe esperanças e discursos inflamados, mas a desigualdade que vigora até hoje, demonstra que falhamos bastante. Nosso projeto democrático entrou em descompasso e nos fez chegar à realidade de hoje, num Brasil ainda fazendo jus ao título de ser o país do futuro. Nos resta torcer para que este, quando chegar, seja melhor do que o presente.



*Advogado e Especialista em Segurança Pública

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Marcos Espindola: "Descobrimos também que os extremos representam o perigo de assumir uma verdade que nos cega" Divulgação

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