Carlos ArruzaDivugalção

Por Carlos Arruza*
Em tempos sombrios como estes que vivemos uma reflexão poderia nos servir: “O que somos capazes de fazer para suportar a dor numa realidade de mais de 500 mil mortes no Brasil? ”

Para a psicologia, somos seres de natureza heroica. Aprendemos desde cedo a brigar por nosso espaço, direitos e conquistas individuais. Nosso organismo age para a busca da eternidade no processo de auto regulação (biológico) e na ação de garantir nosso nome na história não importa a classe social a que pertencemos (comportamental).
É provável que esse instinto nos induza a esquecer do coletivo, reforçando o lugar heroico de destaque. Portanto, a morte sempre tratada como consequência dos fracos ou desafortunados. Seja pelo corpo físico ou mesmo pelo saldo de suas conquistas.

Ainda no exercício de auto estima, até no campo religioso temos os exemplos de mitos que entram em contato com a morte e ressuscitam, aumentando seu lugar de poder, ou até mesmo como no salmo 91 da bíblia que afirma “Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido, somente com os teus olhos olharás, e verás a recompensa dos ímpios.”
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Poderíamos então localizar o que nos faz por vezes tão frios ou mesquinhos com a dor alheira. Receber a notícia de que este número de óbitos não para de crescer, mas que certamente eu faço parte de um grupo seleto, escolhido por Deus, que não deveria me preocupar tanto ou perder tempo com a dor de outros que, por algum motivo, precisam passar por isso.
Assim criamos as justificativas mais perversas: a sexualidade, determinada religião ou crença, com certeza fez alguma coisa errada... entre outras frases para nos anestesiar, pretensiosamente, na torcida de que tudo passe logo e eu confirme toda a minha teoria narcísica.

É preciso reconhecer a grandeza dos que partem. Suas lutas, seus exemplos e toda a construção coletiva a qual fazemos parte diretamente ou não. A roda sempre gira e a diferença está em como significar a nossa existência. Acreditem “heróis e anti-heróis”: não importa o como vamos morrer. É só uma questão de tempo.

*É ator e psicólogo registrado no Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP 05/33478) com o nome de Carlos Francisco Pinto Silva