Volto para casa no intervalo entre a luminosidade e a escura noite. É dia e quase já não é. Meus olhos cansados se distraem em pensamentos outros que não os que me acompanham os pés. Ando com a vagarosidade que o tempo, dos anos tantos vividos, exige. A valentia, hoje, permanece apenas na alma. O corpo é marcado por peças que, vez em quando, rangem e machucam a engrenagem.Não reclamo. A longevidade é entardecer prolongado que canta gratidão.
A calçada, por onde caminho, nunca foi correta. Sou eu que a conserto com a atenção. Quando criança, se caía, já levantava. Se chorava, já ria depois. Hoje, preciso que o medo me proteja.Distraído, nas escolhas e no lusco-fusco do dia, quase não vejo a casca de banana que me poderia levar a não mais ver. Um tombo, nessa idade, é porta aberta para o fim.
Jamile, minha amiga há décadas, diz que eu exagero. Moramos parede a parede e nos amamos como irmãos. Irmãos meus morreram todos. Ela teve nenhum. Não nos casamos. Ela caiu em uma casca da dissimulação. Viveu anos de namoro com quem vivia casado em outro canto. Quando descobriu, pareceu desanimada demais para se levantar. O tempo e a amizade limparam as sujeiras da queda e aliviaram o corte da alma.
Entendo a amizade como sopro explicador do sagrado. Leve. Sussurrador. Cantante, até. Na música do encontro, a dança de histórias que se entrelaçam no mundo grande do tempo curto do existir.Tive, também, amores. Foram todos. Um a um. Hoje, o passado até me empresta alguma diversão. Rio das esquisitices de quando se está apaixonado. Das promessas em mim de noites sem dias, quando da dor da partida.
O rio chega ao mar e o mar é maior do que qualquer rio. Vida grande é para quem tem alma grande. E alma grande é para quem compreende que o amor é maior do que a gente, do que as gentes que vivem na gente por um tempo. O amor desafia o tempo e desafina no tempo os que não entendem do amar.
O tempo me explicou o amar. É por isso que me levanto e olho a existência com os olhos no infinito. Pequeno eu sou e menor ainda seria se pisasse em tantas cascas escorregadias que me levariam à queda.
Bananas foram feitas para nos alimentar. Como tudo. Nos alimentamos para prosseguir caminhando, mesmo que sem pressa. Rios não têm pressa. Nem risos deveriam ter. Cada instante de felicidade deve ser eternizado. Por isso, não tenho pressa de me despedir dos momentos bons.
À noite comerei a sopa aquecedora na casa de Jamile. Comprei um vinho bom para a conversa. Na Bíblia, nos tempo de Jesus, o vinho simbolizava a alegria. Então, o bem é brindar. Brindar, inclusive, a visão que me fez ver e não cair. Que me faz ver que cada instante é instante de agradecer.
É primavera e os ipês amarelos da minha rua já sabem disso. E a esperança que mora em mim é que os meus irmãos de carne e alma também saibam.