Por thiago.antunes

Rio - A roda de samba, uma das manifestações culturais cariocas que mais tem se multiplicado pela cidade, virou alvo de polêmica justamente em uma região conhecida pelo seu espírito boêmio. Em artigo publicado em 30 de novembro, no DIA, representante dos proprietários de casas noturnas da área da Lapa questionam o horário e as regras para a realização dos eventos na Praça Tiradentes. Em resposta publicada na segunda-feira, o Sindicato dos Músicos defende a democratização e o acesso gratuito à arte. Para ampliar o debate, será realizada hoje, às 15h, reunião envolvendo todas as partes a fim de discutir o assunto. Logo depois, lá pelas 18h, haverá mais uma edição da roda 'Festa da Raça' para unir os dois lados.

O presidente da associação dos empresários 'Polo Novo Rio Antigo' afirmou, no artigo, não ser favorável à permanência da roda de samba na Praça Tiradentes, sob argumento de que "a região reúne pelo menos 80 casas que vivem do mesmo negócio, o samba, pagando altos impostos, gerando empregos e enfrentando grandes desafios frente à crise econômica". Segundo o texto, assinado pelo presidente Carlos Thiago Cesário Alvim, "a atração, que parece agregar valor à região, acaba incentivando a concentração e permanência de ambulantes que concorrem de maneira desleal, além de afastar os visitantes das casas e perturbar quem reside no entorno".

A Festa da Raça reúne milhares de pessoas na praça duas vezes por mêsDivulgação

Já na avaliação dos sambistas e produtores culturais, as rodas na Praça Tiradentes geram trabalho e renda, além de atrair público e dar vitalidade ao local, que por muitos anos viveu carência de serviços públicos e insegurança. Atualmente, a região é palco de eventos como Coro Come, Tiradentes Cultural, Festa da Raça e Pede Teresa, esses dois últimos rodas de samba.

O produtor cultural Felipe Campos Vieira, conhecido como "Pipa", um dos organizadores do Samba na Praça, ressaltou o valor turístico e musical da região. "O samba é um sentimento, e cabe a cada pessoa decidir como quer resplandecer esse sentimento, seja na rua ou dentro de alguma casa noturna. O Rio está em um momento de transformação. O desemprego fez com que as pessoas buscassem a sua vocação na arte", ponderou. O Sindicato dos Músicos também afirma que esvaziamento das casas noturnas são reflexo da crise econômica e não das rodas de samba na praça, que acontecem duas vezes por mês.

PM chegou a proibir samba

Apesar de a Prefeitura do Rio ter publicado decreto em julho que permite as rodas de samba de ocorrem sem a necessidade de alvará, a PM chegou a impedir no mês passado a realização de um evento na Praça Tiradentes. A roda de samba Pede Teresa, que ocorre todas as sextas-feiras no local, também foi proibida em julho deste ano. Na ocasião, os organizadores do evento disseram que a festa tinha o aval da PM, mas não havia um documento que comprovasse a permissão.

Mês passado%2C a PM impediu a realização da roda Pede TeresaLuiz Ackermann / Agência O Dia

A PM explicou que o decreto municipal isenta eventos desta natureza de alvará, por se tratar de manifestação cultural. Ainda assim, o comando do 5ºBPM (Praça da Harmonia) exige o documento de "nada opor", como garantia para a segurança do público. A PM foi questionada sobre a proibição dos eventos e se foi acionada por moradores da região por conta do barulho. No entanto, até o fechamento da reportagem a corporação não explicou o motivo do cancelamento e se recebeu reclamações de moradores.

Empresário propõe que rodas de samba na praça sejam encerradas às 22h

A vice-presidente do Sindicato dos Músicos do Rio de Janeiro, Deborah Cheyne, explicou que a ideia do encontro de hoje é discutir as questões referentes aos eventos com comerciantes e moradores da região. "Não convocamos autoridades públicas nesse primeiro momento. Queremos amarrar uma proposta com as pessoas para depois levar ao poder público e órgãos envolvidos diretamente, além, é claro, dos moradores da região", detalhou. Ela lembrou, ainda, que o samba é um patrimônio da cidade. "O samba nasceu na rua, e, por isso, não tem que ficar enjaulado. Queremos que o samba continue, pois os músicos e o público merecem", concluiu.

O presidente do Polo Novo Rio Antigo, Carlos Thiago Cesário Alvim, pede que os eventos na praça terminem às 22h para não perturbar os moradores e hóspedes de um hotel no local. "O que está acontecendo é uma vontade de ocupar os lugares. As pessoas não tem dinheiro para montar uma casa, e decidem fazer um evento no espaço público. Somos favoráveis ao samba, de forma gratuita e em espaços públicos. Mas também somos obedientes à lei", argumentou Cesário Alvim.

A Polícia Militar informou que as rodas de samba que são realizadas às sextas-feiras no local encerram-se pontualmente à meia noite, e em seguida a Comlurb realiza a limpeza da praça. O comando do 5ºBPM (Praça da Harmonia) ressaltou que envia equipe de supervisão para garantir que o horário seja cumprido. A prefeitura explicou que decreto dispensa rodas de samba de autorização prévia.

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