
Rio - Antes símbolo de tecnologia e sinônimo de vendas milionárias, na atual Era do Streaming o CD já foi dado como "morto". Com mais de 35 anos no mercado, a indústria fonográfica acompanha o formato agonizar lentamente nas prateleiras enquanto serviços como Deezer e Spotify se tornam cada vez mais acessíveis. Porém, ainda há quem mantenha o hábito de comprar e ouvir CDs - logo, há também quem faça disso sua principal fonte de renda.
Celebrado todo 17 de abril, o “Dia do Lojista de CD” passa despercebido para quem ainda sobrevive da venda deste tipo de produto. “Nem sabia que isso existia”, diz Ozíris dos Santos, de 49 anos, conhecido por seus clientes apenas como Magrinho. Morador de Deodoro, na Zona Oeste do Rio, é dono um bazar de CDs no segundo andar de um pequeno prédio, na Rua Sete de Setembro, no Centro do Rio. Ao lado de seus irmãos, ele abriu a loja há pouco mais de seis meses, e conta que sua paixão pela música foi o que levou a abrir o negócio.
“Na minha casa, lá em Deodoro, tinha um quarto desse tamanho (aponta para os cantos da loja) com mais de mil CDs. Eu juntava tudo e os meus irmãos me chamavam de maluco”, conta Magrinho, que após acumular diversos álbuns dos mais variados artistas, deixou de fornecer para outros vendedores e abriu seu próprio bazar. “Vendia de porta em porta, sempre fui negociador. Daí fui me preparando para começar esse negócio”, diz.
Magrinho revela que, apesar do declínio nas vendas de CD, consegue pagar o aluguel do ponto e se manter bem financeiramente. Segundo o vendedor, muito do sucesso nas vendas está na variedade do que coloca em seus balcões, em preços que variam entre R$ 5 e R$ 10.
"Como são os mesmos compradores, tem sempre que ter coisa nova", afirma, dizendo ainda que a média de CDs vendidos varia bastante. “Tem dias que a gente põe mais título, coisa fora de catálogo, daí vende bem. Mas passa dois, três dias e pode vender quase nada. Feriado então aí que não vende mesmo”.
Parceiro de Magrinho nos negócios, Marconi da Silva, de 46 anos, conta que mesmo com preços baixos, é importante o produto, na grande maioria das vezes já usado, ter uma boa aparência. Morador de Cabo Frio, ele costuma vir ao Rio a cada quinze dias para fazer a limpeza dos álbuns. “Se tiver sujo ou com a capa riscada, o cara que é colecionador olha e já não gosta, não se interessa", conta.
Não muito distante dali, na mesma rua, a loja Pequeno Mundo dos CDs faz sucesso entre os amantes da música. Funcionando desde 2001, o estabelecimento consegue se manter em atividade mesmo após passar dificuldades, e atualmente vende em média cem títulos por dia.
"Antigamente dava dinheiro, dava para curtir, dava para aproveitar. Hoje em dia dá para viver porque a gente tem a nossa clientela, mas sempre correndo atrás”, diz André Ramalho, de 27 anos, que ajuda a tocar as vendas ao lado do pai. Ele revela que os últimos anos foram os mais difíceis para a loja. “A partir de 2012 o negócio diminuiu bastante, muito também por conta das obras do VLT, o que dificultou ainda mais", conta.
O lojista conta que ainda recebe material de gravadoras, porém, em menor número. Para ele, a pirataria nunca rivalizou com a venda de CDs, e sim, o avanço das plataformas de música online.
"A pirataria nunca foi um problema, o que mais foi um problema realmente foi a internet. As gravadoras não têm mais acreditado no físico e tem apostado mais no digital (...) estão tirando muita coisa de catálogo", diz André, que conta ainda que muito de seu estoque vem de pessoas que se desfazem do material.
"O que abastece mais a gente são os lotes usados. Geralmente vem alguém querendo vender e diz 'meu pai faleceu e ele tinha uns 500 CDs', daí a gente vai lá na casa da pessoa e arremata", revela.
Peça ‘cult’ e fãs enlouquecidos
De acordo com André, a média de idade de quem que procura CDs em sua loja tem variado, porém, ainda é formada majoritariamente por 'senhores' que buscam títulos de rock dos anos 70 e 80. Álbuns de trilha-sonoras de novelas também fazem sucesso entre os compradores que buscam sempre algo mais específico. Para ele, após o renascimento do vinil, o formato também vive um novo momento no mercado.
"O CD, assim como outras coisas antigas, acabou virando 'cult'. Então essas coisas mais raras de se encontrar acabaram atraindo o público", conta André, revelando ainda que os fãs de música pop e infantil são os mais assíduos, e que não fazem restrição de preço na hora pagar por algum título.
"Tem também os colecionadores de Xuxa, Angélica, coisas desse tipo. Eu vendia um CD da Rouge a 15 reais. Depois que elas voltaram, teve gente se estapeando pra comprar e eu cheguei a vender um por 160", conta rindo. "Uma vez, vendi um da Joana por 500".
Reportagem do estagiário Rodrigo Sampaio, sob supervisão de Thiago Antunes







