Prefeito de Japeri é preso denunciado por ligação com o tráfico

Além de Carlos Moraes, o vereador Cacau e uma mulher que seria assessora da prefeitura também foram presos na ação do MP e Polícia Civil. O presidente da Câmara da cidade, Wesley George de Oliveira, o Miga, é procurado

Por RAFAEL NASCIMENTO

Carlos Moraes (E) é encaminhado para avaliação e tratamento médico
Carlos Moraes (E) é encaminhado para avaliação e tratamento médico -

Rio - O prefeito de Japeri, Carlos Moraes Costa, de 73 anos, e o vereador Claudio José da Silva, o Cacau, foram presos na manhã desta sexta-feira durante a Operação Senenes, deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) para combater o crime organizado na Baixada. Também há um mandado de prisão contra o presidente da Câmara de Japeri, Wesley George de Oliveira, o Miga, que está foragido. Todos os políticos são do PP. Os três e Aparecida Kaizer de Matos, que seria assessora da prefeitura e também foi presa, foram denunciados por associação para o tráfico de drogas e seriam ligados ao bando de Breno da Silva de Souza, o BR, chefe do tráfico no Guandu, em Japeri, preso na semana passada. A Justiça decretou a suspensão dos direitos políticos do prefeito e dos dois vereadores. Promotores e policiais fizeram buscas no gabinete do prefeito.

Em uma interceptação telefônica feita ano passado para investigar BR por três homicídios no Arco Metropolitano, a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) flagrou o prefeito conversando com o chefe do tráfico no Guandu. Segundo a polícia, na conversa, Moraes mostra "seu comprometimento com a defesa dos interesses da organização criminosa e que, na qualidade de prefeito, não mediria esforços para evitar que a mesma sofresse qualquer prejuízo."

Outras escutas foram realizadas e descobriu-se a ligação dos políticos com o crime organizado na região. Foram apreendidos na casa do prefeito de Japeri, que mora em Nova Iguaçu, também na Baixada, uma pistola, munições, mais de R$ 34 mil e 850 dólares em bolsas com o brasão da prefeitura. O prefeito e outros políticos usariam também suas funções para praticar fraudes em licitações — para a construção de creches, na cidade — e desvios de dinheiro público em favor da organização criminosa, de acordo com a investigação.

Polícia apreendeu arma, munição e dinheiro na casa do prefeito de Japeri - Reprodução / Polícia Civil

Paralelamente, estão sendo cumpridos mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão contra 34 traficantes denunciados por integrarem a mesma facção criminosa que controla a venda de drogas em diversas favelas de Japeri, sob a liderança de BR, também alvo dessa operação. Os 38 mandados de prisão foram expedidos pela desembargadora Márcia Perrine, da 7ª Câmara Criminal.

Segundo o MP, o prefeito e os vereadores denunciados "colocaram o exercício de seus mandatos a serviço dos interesses da organização criminosa em troca de benefícios pessoais e a possibilidade da estruturação de um projeto político que os perpetuassem no poder." A ponte entre o gestor da cidade de Japeri e BR era feita por Jenifer Aparecida Kaiser de Matos, de acordo com as investigações. Ela foi nomeada assessora na prefeitura e também é alvo da operação desta sexta-feira.

A investigação apurou que, além de controlar a distribuição de drogas na região – praticando diversos outros crimes para afirmar o controle territorial, como homicídios, roubos, extorsões, os criminosos também mantinham sociedade com os operadores de um areal clandestino no interior do Complexo do Guandu. Nos diálogos interceptados, fala-se que o lucro mensal do tráfico com essa atividade chegaria a R$ 100 mil.

Wesley George de Oliveira, o Miga - Reprodução Facebook

BR pediu interrupção de operação para fazer baile funk

Em uma das escutas autorizadas pela Justiça, o chefe do tráfico do Guandu Breno de Souza ligou para o prefeito e para outras pessoas influentes do município para interromper uma operação policial que visava impedir a realização de um baile funk.

Segundo o MP, o vereador Claudio José, o Cacau, também ligou para o traficante se comprometendo a ajudar "a encontrar uma solução para a intervenção policial na comunidade". O prefeito retornou o contato telefônico com BR para dizer que estava empenhado em atender o pedido dele e para passar informações privilegiadas sobre outra operação policial na comunidade. Disse ainda que, em companhia do vereador Wesley George, o Miga, iria procurar o comando do 24º BPM para "alinhar" com o mesmo.

A operação é um desdobramento das investigações da Polícia Civil, do Grupo de Atribuição Originária em Matéria Criminal (Gaocrim/MPRJ) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ). A ação conta com o apoio da Coordenadoria de Inteligência da PMERJ. As diligências cumprem mandados de busca e apreensão nas residências de 33 denunciados, assim como nos endereços e celas de quatro alvos já presos.

O advogado Flávio Fernandes, que defende o prefeito Carlos Moraes, disse que "analisou superficialmente" o processo e que os elementos da decretação da prisão não tem embasamento. "Do que existe na investigação, é de fácil conclusão que não estão presentes os elementos do tipo penal que o estão imputando", disse. "Não é a primeira vez que ele é prefeito de Japeri, já foi vereador, é ficha limpa, advogado criminalista, mais de 30 anos de advogacia, conduta irrepreensível."

Segundo o defensor, o prefeito fala com muitas pessoas e nem sempre sabe quem é o interlocutor. "É um homem público do município com o pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da Região Metropolitana do Rio, um município carente, procurado por diversas lideranças e muitas vezes não tem conhecimento de quem está falando com ele", falou. "Não existe elemento para configurar uma associação ao tráfico. É sempre alguém ligando, pedindo iluminação. É um município muito violento, então as conversas aqui são inclusive rechaçando o tráfico. Inclusive ele teve reuniões com cúpula de segurança, batalhão, onde ele procura a todo momento uma solução para essa violência que assola Japeri." 

Sobre as armas e o dinheiro encontrado, Fernandes disse que Carlos Moraes já foi colecionados de armas. "Depois não quis mais, fez uma doação dentro da lei de armas. Essa arma, pelo que me parece, estava esquecida e acho que nem funciona. Os dólares, é uma quantia irrisória, ele veio de uma viagem dos EUA com a família, a neta. É uma quantia que poderia ter com o salário de prefeito", defendeu.

O prefeito de Japeri, Carlos Moraes (PP), foi eleito no primeiro turno das eleições de 2016. O político teve 23.863 votos contra 23.252 de André Ceciliano (PT). Moraes já havia ocupado a cadeira de prefeito duas vezes. Uma entre 1993 e 1996, quando foi o primeiro prefeito eleito de Japeri, que se tornou município em 1990, após se emancipar de Nova Iguaçu; e outra entre os anos de 2001 a 2004.

Além da DHBF e o Ministério Público do Rio, apoiam a operação as Divisões de Homicídios da Capital (DH-Capital), e de Niterói, Itaboraí e São Gonçalo (DHNISG). A Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) também integra a ação. As equipes deixaram a Cidade da Polícia, no Jacarezinho, Zona Norte do Rio, ainda no fim da madrugada desta sexta-feira.

 

Galeria de Fotos

Carlos Moraes (E) é encaminhado para avaliação e tratamento médico Estefan Radovicz
Dinheiro encontrado na casa do prefeito de Japeri Reprodução / Polícia Civil
Polícia apreendeu arma, munição e dinheiro na casa do prefeito de Japeri Reprodução / Polícia Civil
Wesley George de Oliveira, o Miga Reprodução Facebook

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