Cabos foram cortados durante operação no Complexo do AlemãoArquivo/Reginaldo Pimenta / Agência O Dia

Rio - Após a megaoperação no Complexo do Alemão, na Zona Norte, na última sexta-feira (24), moradores ainda sofrem com falta d'água e energia. Na região, transformadores ficaram destruídos depois de serem atingidos por tiros e ramais de luz foram cortados. Até esta segunda (27), equipes das concessionárias seguem trabalhando no local para o restabelecimento total dos serviços.
Ao DIA, o ativista pela causa dos Direitos Humanos e fundador do "Voz das Comunidades", Renê Silva, comentou os transtornos sofridos pela população.

"A gente está falando de mais de 80 horas, são 3 dias e meio após aquela megaoperação, e ainda hoje existem pessoas sem luz e sem água, porque consequentemente em muitos lugares no morro, especialmente altos, a gente precisa de bomba para água ter força para subir. Então as pessoas que são mais vulneráveis nessa situação são cidadãos comuns, que vivem nesses espaços porque não tem outras oportunidades de estarem em outros ambiente, por necessidade de moradia", disse.

Renê reforçou ainda que muitas pessoas tiveram alimentos estragados por conta do calor. "São comércios que trabalham com frigorífico e coisas do tipo que perderam tudo e tiveram prejuízos absurdos. São moradores que acabaram de fazer a compra do mês, receberam salário, fizeram a compra e tiveram que jogar boa parte do que estava na geladeira fora, porque não só a operação fez com que as pessoa perdessem a energia, mas o sol fez as coisas estragarem mais rápido", explicou.

O ativista também sugeriu uma ação social após operações policiais nas comunidades. "Infelizmente, operações como essa, não ocorreram a primeira vez e nem vão ser a última. A minha sugestão é que o governo pense em uma ocupação social no após, pois já que vai acontecer, é dever pensar na população. São milhares de pessoas que vivem dentro desses espaços e que não estão sendo assistidas. É necessário que haja um esforço para que a população tenha sua luz, água, internet e televisão funcionando", afirmou.
Uma das moradoras afetadas é a artista plástica e escritora indígena Mariluce Mariá, de 43 anos, que ficou mais de 30 horas sem energia. Além dos problemas de luz e água, ela também alertou para a falta de internet na comunidade.

"A área que eu moro é uma das que mais tiveram tiros no início da operação às 5h da manhã do dia 24. Nós também estamos sem internet, estou usando os dados móveis e ainda assim está horrível. Além de que várias áreas do Complexo do Alemão continuam sem energia e sem água", lamentou.

Mariluce comentou também que o problema da falta d’água já vinha acontecendo por conta do calor. "Tem muitas pessoas sem água mesmo antes da operação. O sistema de abastecimento e distribuição das redes para os moradores não conseguiu suprir todas as áreas e depois da operação essa distribuição ficou ainda mais complicada", explicou.

Por fim, a moradora contou que passou por momentos de terror em meio à operação. "Por pouco um tiro não acertou o ar condicionado. Passou de raspão e bateu na lateral da janela do quarto do meu filho ao lado do computador que ele estuda e trabalha, só que já conhecemos esses confrontos e no primeiro disparo meu filho pulou para o meu quarto onde ficamos o dia inteiro no chão", disse.
O que dizem as concessionárias?

De acordo com a Light, com apoio de líderes comunitários, funcionários realizaram inspeções e identificaram danos significativos na estrutura elétrica. No momento, parte da comunidade já teve o fornecimento de energia restabelecido, mas os trabalhos seguem em andamento.

"Trata-se de um processo que exige bastante cuidado, devido à complexidade dos reparos e às condições desafiadoras no local. Seguiremos trabalhando até a completa normalização do serviço. Reforçamos nosso compromisso em restabelecer a energia o mais rápido possível, sempre priorizando a segurança de todos os envolvidos", disse em comunicado.

Já a Águas do Rio informou que o abastecimento nas comunidades do Alemão está em processo de recuperação gradativa. A concessionária explicou ainda que atuou em reparos nos sistemas de bombeamento da região durante todo o fim de semana.

A empresa segue dando suporte à população local por meio de caminhões-pipa até a normalização do abastecimento.
Procurada, a Polícia Militar respondeu que a ouvidoria da corporação está à disposição dos cidadãos para a formalização de denúncias através do telefone (21) 2334-6045 ou e-mail ouvidoria_controladoria@pmerj.rj.gov.br.

"Em casos como esse o cidadão deve apresentar imagens do bem danificado, se possível o número da viatura envolvida no incidente e deixar suas informações de contato", explicou em nota.

Operação
A megaoperação das polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e Alemão, na Zona Norte do Rio, deixou cinco mortos e nove feridos. Segundo relatos de moradores, os tiroteios continuam intensos, mesmo após 14 horas do início da ação. Reféns do medo, muitos deles tiveram suas casas atingidas por disparos, vivendo momentos de extrema tensão e insegurança.
A ação policial ocorreu no dia do aniversário do criminoso Edgard Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, chefe do tráfico da Penha. Considerado um dos traficantes do alto escalão no Comando Vermelho e um dos criminosos mais procurados do Rio, o criminoso completou 55 anos nesta sexta-feira (24). Doca, que batizou a sua quadrilha como "Tropa do Urso", está à frente, segundo as investigações da Civil, de dezenas de invasões sangrentas em comunidades do estado nos últimos três anos.