Moradora do Complexo da Penha, Tauan Brito é mãe de um dos mortosReginaldo Pimenta/Agência O DIA

Rio - Familiares de mortos na megaoperação nos Complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte, chegam a todo momento no Instituto Médico Legal (IML) Afrânio Peixoto, no Centro, nesta quinta-feira (30), para o reconhecimento e liberação dos corpos. A operação mais letal da história do Rio deixou 121 mortos e parte dos cadáveres foi resgatada por parentes e moradores das comunidades e levados para à Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, uma das principais da região.

As famílias dos suspeitos mortos durante a operação aguardam a conclusão dos trabalhos do lado de fora do IML e, muito abalados, denunciaram supostas violações por parte dos policiais. Um grupo de viúvas, que não quis se identificar, contou ao DIA que ainda não conseguiu identificar os maridos por conta das condições em que os corpos foram encontrados na área de mata onde, segundo a cúpula da segurança, ocorreram a maior parte dos confrontos. Elas relataram ser do Pará e estarem morando no Complexo da Penha há três anos.

As companheiras afirmam que alguns dos homens mortos tiveram partes do corpo mutiladas e ficaram com os rostos desfigurados. Outros também apresentavam marcas de facadas pelo corpo. As mulheres ainda disseram ter enfrentado dificuldades de chegar até os corpos e que granadas foram encontradas próximas aos cadáveres, segundo elas, para impedir que familiares tivessem acesso.

Outras famílias declararam ter trocado mensagens com os suspeitos durante a operação nas favelas e eles teriam dito que pretendiam se entregar, mas acabaram baleados e mortos. Moradora do Complexo da Penha, a microempreendedora Tauã Brito relatou que o filho, Wellington Brito, de 20 anos, que tinha envolvimento com o tráfico, chegou a pedir ajuda, porque havia ficado encurralado.
Ela diz que ao receber a mensagem, tentou fazer buscas para que ele pudesse se render à polícia, mas teria sido impedida por policiais que teriam atirado para dificultar o acesso de parentes na área de mata. O jovem só foi localizado durante a madrugada, nas buscas feitas pelos moradores, mas já estava sem vida. Segundo a mãe, ele teria sido morto com um tiro na cabeça e foi encontrado com cortes de faca no braço, além dos pulsos apresentarem marcas de cordas.

"É algo que eu nunca imaginei que ia sentir na minha vida. Não tem explicação a dor que é uma mãe perder um filho, você olhar o seu filho com a cabeça estourada. O que aconteceu ali foi algo muito desumano, mesmo", desabafou.
Tauã afirmou ainda que nunca apoiou a escolha de Wellington em se envolver com o tráfico de drogas e que tentava dissuadi-lo a deixar o crime organizado. "Como mãe, eu nunca apoiei a vida que ele levou. Eu sou uma mãe negra, solteira, microempreendedora, que luta todo dia para criar meus dois filhos. Eu nunca apoiei a escolha que ele fez, mas como mãe, nunca ia virar as costas para ele".

Na última troca de mensagens entre mãe e filho, poucas horas antes da morte, a mulher ainda voltou a pedir que o rapaz deixasse a criminalidade e fez algumas orações com ele, pedindo proteção. Ela ainda propôs que eles se mudassem para recomeçar.

"O governador deu uma entrevista e disse que a operação foi bem sucedida. É uma pergunta que eu fico me fazendo: ele se candidatou somente para isso, para entregar corpos? Ficou uma comunidade toda destruída, com os jovens que perderam seus pais, amigos e irmãos. O que ele vai fazer com a revolta desses meninos? Vai entrar com que projeto para mudar a mente desses garotos que ficaram lá dentro? Ou eles vão ser os próximos que vão virar defuntos lá no mato?", questionou a mulher, que descreveu a megaoperação como "um estrago".

"A dor das mães daqueles policiais não é diferente da minha, porque ela é mãe assim como eu e todas as outras mães dos corpos que estavam lá. Então, a gente precisa que aconteça mudança. Governar um estado não é só entrar na favela e tirar vidas, é dar oportunidade, dar uma visão diferente de uma realidade de favela e isso não fazem. Para mim, não foi uma operação bem sucedida, foi um estrago, vergonhoso".

O esquema especial no Instituto Médico Legal (IML) está em andamento. Até o momento, cerca de 80 corpos já passaram por exame de necropsia e parte deles foi liberada para a retirada pelas famílias. O trabalho segue com celeridade, a fim de concluir os exames. Neste período, o atendimento às famílias está ocorrendo no posto do Detran que fica próximo à unidade e os corpos não relacionados com a operação estão sendo temporariamente encaminhados ao IML de Niterói.
Defensoria Pública acompanha o caso
A defensora Rafaela Garcez, que esteve no IML nesta quinta-feira (30), afirmou que o órgão vai peticionar ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que assumiu temporariamente a relatoria da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, conhecida como ADPF das Favelas, a autorização para que tenham acesso aos corpos a serem periciados, que até o momento não conseguiram.

"O controle não é para que nós busquemos responsabilizar, o controle que a Defensoria quer é para que nós melhoremos a qualidade dessa perícia, com o olhar de outros peritos que podem trazer sim uma melhor análise das circunstâncias, já que parte do local não foi preservado, como está claro, quando a gente vê nas matas onde os corpos foram encontrados. O corpo dessas pessoas é que vai dizer o que efetivamente ocorreu. Para isso, eu acho que nós precisaríamos ter acesso a esses corpos. Para quem quer transparência e contenção das más práticas, não teria o porquê a presença da Defensoria ser impedida".

O órgão já solicitou as imagens das câmeras corporais dos policiais, mas de acordo com a defensora, o material leva tempo para ser disponibilizado. Ontem, em coletiva, o secretário de Estado de Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes, afirmou que todos os agentes estavam com os equipamentos, mas que as gravações podem ter sido interrompidas, já que as baterias têm duração de 12 horas e a incursão das equipes foi mais longa.

"Essas câmeras estão sendo requisitadas, essas imagens não são mandadas imediatamente. A gente sabe que o acionamento dessas câmeras pode ser no momento do início da operação. Se foi no início, me parece que 12 horas estariam cobertas. Agora, se acionaram antes, e a bateria acabou, isso a gente só vai poder dizer depois do acesso à essas imagens", disse.
Até o momento, a defensoria já atendeu 106 famílias das pessoas mortas na megaoperação policial. Os atendimentos continuam nesta quinta (30) e devem se estender até os próximos dias.

As equipes da força-tarefa foram divididas entre o Complexo da Penha, estacionamento do Detran, Instituto Médico-Legal (IML) e o Hospital Getúlio Vargas. Até o momento, foram realizados o acolhimento inicial das famílias e o atendimento jurídico para os casos de privação de liberdade ou apreensão, obtenção de documento das pessoas mortas, auxílio para a gratuidade de sepultamento, bem como alvará para translado das pessoas mortas para outros estados.