Cláudio Castro se reuniu com governadores do Brasil nesta quinta (30)Divulgação/Governo do Rio

Rio - Especialistas em segurança pública ouvidos pelo DIA revelaram os principais pontos que podem garantir a eficácia do "consórcio da paz", proposta criada pelo governador Cláudio Castro, nesta quinta-feira (30) para unir os estados no combate ao crime organizado. A medida ocorre na semana da megaoperação nos complexos da Penha e Alemão, considerada a mais letal da história do Brasil por resultar na morte de 121 pessoas, incluindo quatro policiais.

Dentre as ações, o ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Paulo Storani, o perito criminalista José Ricardo Bandeira, e o policial civil aposentado e ex-tutor da Secretaria Nacional de Segurança Pública Nelson Andrade apontam que o estado do Rio deve focar em buscar apoio logístico e nas investigações de inteligência.

Para além disso, o policial civil aposentado Nelson Andrade acredita que é preciso leis mais eficazes para que os órgãos de segurança parem de "enxugar gelo".

"Este consórcio criado tem que ter ações imediatas e de impacto com a participação efetiva dos governos estadual, municipal e federal. O estado do Rio de Janeiro deve priorizar, neste primeiro momento, a logística junto a outros governadores e ao Governo Federal. Sozinho, o Rio de Janeiro não consegue combater crimes transnacionais. Deve haver medidas em conjunto!", frisou.
Crime organizado ultrapassa fronteiras

Para o perito criminalista José Ricardo Bandeira, a ideia de uma cooperação interestadual estruturada para a segurança pública é necessária e pertinente no contexto brasileiro.

"O crime organizado, com facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), atua em uma lógica transfronteiriça, cruzando divisas estaduais e até nacionais. A resposta estatal não pode ficar restrita às fronteiras geográficas", disse.

Por conta disso, Bandeira reforça que a cooperação deve ir muito além do auxílio imediato, como o empréstimo de efetivo e equipamentos para operações.

"O Rio deve buscar apoio técnico de inteligência para desmantelar a estrutura financeira das facções, que têm conexões em diversos estados e no exterior, e isso inclui a colaboração no acesso a informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras(COAF) e a expertise de outras polícias em investigações de lavagem de dinheiro", afirmou.

Por conta desta complexidade do crime no estado, o ex-capitão do Bope Paulo Storani acredita que há uma grande possibilidade de funcionamento da nova medida. No entanto, ele alerta que a proposta ganhou força devido a omissão do Governo Federal em apoiar os estados.
"Ela não foi criada por conta de um projeto político eleitoral, foi criada em cima de uma necessidade constatável, que é a realidade do Rio de Janeiro, mas que reflete nos outros estados. E ele se dá exatamente pela omissão do Governo Federal em apoiar os estados, na resistência que tem para desenvolver políticas públicas indutoras de outras políticas públicas locais, porque esse é o papel de um ministro da Justiça e Segurança Pública. Na verdade, os ministérios têm essa responsabilidade, políticas públicas para atender às necessidades da sua área de atuação", afirmou.
Em relação a cooperação dos demais estados, Storani explicou que o apoio vem de federações importantes politicamente e economicamente. Ele também reforçou a ideia de que a ajuda ocorrerá mais de forma logística e não tanto de força policial.
"Não acredito que grandes efetivos virão desses estados para atuar aqui no Rio de Janeiro, mesmo porque esses estados também têm os seus problemas, têm as suas restrições e limitações. Mas um episódio ou outro poderá haver deslocamento de forças. Mas o mais importante serão as operações em conjunto, principalmente nos limites entre os estados, nas rodovias que cortam esses estados, aquelas que vêm das fronteiras, estou falando do Paraná especificamente, mas que envolve ali também o Mato Grosso do Sul, que é também muito complicado, passa por Minas Gerais, passa por São Paulo", contou.
Para o capitão veterano, a cooperação seguirá de forma maior na apreensão de drogas e armas que passam pelas rodovias. "Vejo a esse consórcio importante porque nós estamos falando de mobilização de recursos de forma inteligente, lembrando que o crime não está limitado a uma cidade, nem a um estado, ele é nacional e hoje é transnacional, se nós considerarmos aí o PCC, o Comando Vermelho e a sua influência já na América Latina, Caribe e na Europa, estabelecendo ligações com outras organizações criminosas mundo afora", relatou.

Policiais de outros estados têm capacidade de atuação no Rio?

Questionados sobre a capacidade de atuação dos efetivos de outros estados nas favelas do Rio, Nelson Andrade justificou que os treinamentos são diferentes.

"As polícias de outros estados não têm treinamento e noção do que acontece no Rio de Janeiro, não tem preparo para enfrentar os narcotráfico. Infelizmente, se colocarem colegas de outros estados sem o devido treinamento vai ser pior. O estado tem que ter viaturas, armas e tecnologia para combater o crime organizado. É muito treinamento para não morrer ainda mais policial e inocente", frisou.

Partilhando da mesma opinião, José Ricardo Bandeira ressaltou a que as instituições possuem diferentes capacidades e focos de atuação, o que as torna valiosas em áreas específicas, mas não necessariamente para o modelo de confronto direto em favelas cariocas.

"Algumas forças especializadas de outros estados possuem treinamento tático de alta qualidade, mas a guerra territorial e urbana dentro das favelas densamente povoadas do Rio de Janeiro é um ambiente operacional único no Brasil, com riscos e complexidades muito superiores. A principal contribuição dos outros estados não deve ser o envio de tropas para operações ostensivas, mas sim o combate ao crime em suas próprias jurisdições (por exemplo, impedindo a entrada de armas pelo Mato Grosso do Sul, ou desmantelando lavagem de dinheiro em São Paulo)", disse.

Para ele, o crime organizado do Rio é um problema nacional que se manifesta com maior violência no território fluminense.

"A cooperação deve ser no sentido de cercar o CV em todos os pontos onde ele atua. Acredito que a maior capacidade que os demais estados podem oferecer é no campo da Inteligência e da Investigação Financeira, atuando como um "cerco estratégico" ao poder econômico das facções do Rio, um papel no qual as Polícias Civis e Federais, em especial, podem cooperar de forma decisiva", finalizou.

Divergência de opiniões
Segundo Storani, o consórcio ocorreu logo após o estado do Rio provar sua capacidade de atuação. "Com todas as suas dificuldades, restrições econômicas e financeiras, já que o estado vive um momento financeiro muito delicado há bastante tempo, desde o governo passado, um governo corrupto e perdulário, como foi do Sérgio Cabral e do Pezão. Não quero dizer também que seja o atual governo do Estado do Rio de Janeiro seja o melhor do mundo, mas nesta semana, mostrou a que veio. e provou que, independente do Governo Federal, sem o apoio das Forças Armadas, sem o apoio da Polícia Federal, eles foram lá, invadiram, prenderam e apreenderam", disse.
Para além disso, o capitão veterano do Bope lamentou a morte dos agentes na megaoperação e comentou sobre a força letal utilizada na ação.
"É lamentável a morte de quatro colegas da Polícia Militar e da Polícia Civil, e de tantos outros feridos. Criminosos que foram neutralizados e que, lamentavelmente, temos que lamentar isso, porque isso não é uma boa notícia em lugar nenhum do mundo, e não pode ser para nós, mas foi necessário, porque ao responder a uma operação policial com força letal, vai ter como resposta a força letal. Essa é a grande situação”, explicou.

Já Bandeira acredita que a proposta do "consórcio da paz", no contexto em que foi lançada (logo após a megaoperação), possui uma dupla natureza. Para ele, a cooperação na inteligência, troca de informações e compras consorciadas de equipamentos são medidas eficazes que podem reduzir custos e aumentar a capacidade de investigação e repressão do crime organizado, especialmente no rastreio de armamentos e fluxos financeiros.

No entanto, ele acredita que o movimento parece ser, em parte, uma manobra política para desviar as críticas sobre a letalidade da megaoperação no RJ e para contrapor a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública, apresentada pelo Governo Federal.

"Uma iniciativa de segurança pública não pode nascer sob a sombra da disputa político-partidária, pois sua eficácia depende da adesão e do compromisso de todos os estados, independentemente da orientação política", esclareceu.

O especialista frisou ainda que o sucesso do "Consórcio da Paz" dependerá de sua capacidade de se descolar da pauta política e focar em resultados concretos, com base em pilares bem definidos, como investimento em inteligência e investigações, compartilhamento de informações e integração logística.

"Em resumo, o modelo tem potencial teórico para funcionar, mas sua aplicação prática exige maturidade política e foco técnico inegociáveis", disse.

Saiba mais sobre o "consórcio da paz"
Segundo o governador Cláudio Castro, o consórcio da paz funcionará como um laboratório para que os governadores compartilhem experiências e ações conjuntas. "Este consórcio da paz vai dividir e somar soluções e ajudas práticas na discussão de estratégias. Propus ainda que a sede seja no Rio de Janeiro. Saio daqui feliz por ter uma visão clara de que temos uma grande oportunidade de mudar a segurança pública do nosso país, com integração, coragem e efetividade", disse.