Cláudio Castro se reuniu com governadores do Brasil nesta quinta (30)Divulgação/Governo do Rio
Dentre as ações, o ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Paulo Storani, o perito criminalista José Ricardo Bandeira, e o policial civil aposentado e ex-tutor da Secretaria Nacional de Segurança Pública Nelson Andrade apontam que o estado do Rio deve focar em buscar apoio logístico e nas investigações de inteligência.
Para além disso, o policial civil aposentado Nelson Andrade acredita que é preciso leis mais eficazes para que os órgãos de segurança parem de "enxugar gelo".
"Este consórcio criado tem que ter ações imediatas e de impacto com a participação efetiva dos governos estadual, municipal e federal. O estado do Rio de Janeiro deve priorizar, neste primeiro momento, a logística junto a outros governadores e ao Governo Federal. Sozinho, o Rio de Janeiro não consegue combater crimes transnacionais. Deve haver medidas em conjunto!", frisou.
Para o perito criminalista José Ricardo Bandeira, a ideia de uma cooperação interestadual estruturada para a segurança pública é necessária e pertinente no contexto brasileiro.
"O crime organizado, com facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), atua em uma lógica transfronteiriça, cruzando divisas estaduais e até nacionais. A resposta estatal não pode ficar restrita às fronteiras geográficas", disse.
Por conta disso, Bandeira reforça que a cooperação deve ir muito além do auxílio imediato, como o empréstimo de efetivo e equipamentos para operações.
"O Rio deve buscar apoio técnico de inteligência para desmantelar a estrutura financeira das facções, que têm conexões em diversos estados e no exterior, e isso inclui a colaboração no acesso a informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras(COAF) e a expertise de outras polícias em investigações de lavagem de dinheiro", afirmou.
Por conta desta complexidade do crime no estado, o ex-capitão do Bope Paulo Storani acredita que há uma grande possibilidade de funcionamento da nova medida. No entanto, ele alerta que a proposta ganhou força devido a omissão do Governo Federal em apoiar os estados.
Policiais de outros estados têm capacidade de atuação no Rio?
Questionados sobre a capacidade de atuação dos efetivos de outros estados nas favelas do Rio, Nelson Andrade justificou que os treinamentos são diferentes.
"As polícias de outros estados não têm treinamento e noção do que acontece no Rio de Janeiro, não tem preparo para enfrentar os narcotráfico. Infelizmente, se colocarem colegas de outros estados sem o devido treinamento vai ser pior. O estado tem que ter viaturas, armas e tecnologia para combater o crime organizado. É muito treinamento para não morrer ainda mais policial e inocente", frisou.
Partilhando da mesma opinião, José Ricardo Bandeira ressaltou a que as instituições possuem diferentes capacidades e focos de atuação, o que as torna valiosas em áreas específicas, mas não necessariamente para o modelo de confronto direto em favelas cariocas.
"Algumas forças especializadas de outros estados possuem treinamento tático de alta qualidade, mas a guerra territorial e urbana dentro das favelas densamente povoadas do Rio de Janeiro é um ambiente operacional único no Brasil, com riscos e complexidades muito superiores. A principal contribuição dos outros estados não deve ser o envio de tropas para operações ostensivas, mas sim o combate ao crime em suas próprias jurisdições (por exemplo, impedindo a entrada de armas pelo Mato Grosso do Sul, ou desmantelando lavagem de dinheiro em São Paulo)", disse.
Para ele, o crime organizado do Rio é um problema nacional que se manifesta com maior violência no território fluminense.
"A cooperação deve ser no sentido de cercar o CV em todos os pontos onde ele atua. Acredito que a maior capacidade que os demais estados podem oferecer é no campo da Inteligência e da Investigação Financeira, atuando como um "cerco estratégico" ao poder econômico das facções do Rio, um papel no qual as Polícias Civis e Federais, em especial, podem cooperar de forma decisiva", finalizou.
Divergência de opiniões
Já Bandeira acredita que a proposta do "consórcio da paz", no contexto em que foi lançada (logo após a megaoperação), possui uma dupla natureza. Para ele, a cooperação na inteligência, troca de informações e compras consorciadas de equipamentos são medidas eficazes que podem reduzir custos e aumentar a capacidade de investigação e repressão do crime organizado, especialmente no rastreio de armamentos e fluxos financeiros.
No entanto, ele acredita que o movimento parece ser, em parte, uma manobra política para desviar as críticas sobre a letalidade da megaoperação no RJ e para contrapor a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública, apresentada pelo Governo Federal.
"Uma iniciativa de segurança pública não pode nascer sob a sombra da disputa político-partidária, pois sua eficácia depende da adesão e do compromisso de todos os estados, independentemente da orientação política", esclareceu.
O especialista frisou ainda que o sucesso do "Consórcio da Paz" dependerá de sua capacidade de se descolar da pauta política e focar em resultados concretos, com base em pilares bem definidos, como investimento em inteligência e investigações, compartilhamento de informações e integração logística.
"Em resumo, o modelo tem potencial teórico para funcionar, mas sua aplicação prática exige maturidade política e foco técnico inegociáveis", disse.
Saiba mais sobre o "consórcio da paz"

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