Rio - Sob a chuva que atingiu a cidade, cariocas comemoraram o Dia de São Sebastião, padroeiro do Rio, nesta terça-feira (20). As missas de hora em hora, desde às 6h, levaram centenas de católicos à Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, Zona Norte, ao longo do dia. Com roupas vermelhas e flores, fiéis fizeram preces, agradecimentos e renovaram a fé.
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Na missa solene com o cardeal-arcebispo, às 10h, devotos se emocionaram e balançaram lenços vermelhos, em referência ao sangue derramado pelo santo por Cristo. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o vice, Eduardo Cavaliere, estiveram presentes na solenidade e subiram ao altar para lerem passagens.
Dom Orani João Tempesta afirmou que São Sebastião é um exemplo de perseverança para os católicos e destacou que assim como o padroeiro, os cariocas devem renovar a fé na luta pela paz na cidade.
"São Sebastião é um grande exemplo de cristão que não desanimou com as perseguições. Que os cariocas, que têm desde o século XVI essa devoção, possam nunca desanimar com as flechadas da cidade, da pessoa, da sua família e estar sempre como São Sebastião, renovando a sua esperança. Nosso desejo é que a celebração de São Sebastião possa renovar, no coração dos cariocas e dos que vivem aqui, cada vez mais a esperança, a confiança e a luta por um mundo mais justo, mais humano, mais fraterno e pela paz nessa cidade".
O Santuário Basílica de São Sebastião, conhecido popularmente como Igreja dos Capuchinhos, abriga a imagem primitiva do santo, e Dom Orani descreveu o templo como um relicário da cidade. "Quando foi destruído o Morro do Castelo e também a Catedral do Rio de Janeiro, os capuchinhos responsáveis desceram do morro trazendo a imagem histórica que está aqui agora restaurada, o marco português da cidade e também o túmulo de Estácio de Sá. Depois, aos poucos, construíram essa igreja, que é um pouco o relicário da cidade, da fundação dessa cidade".
Dom Orani celebra missa em homenagem a São Sebastião na Igreja dos Capuchinhos
O prefeito do Rio prestou homenagens ao santo e celebrou estar em mais um Dia de São Sebastião no comando da cidade. "Minhas homenagens aqui ao nosso santo padroeiro, São Sebastião, santo guerreiro, resiliente, que é a marca da nossa cidade. Portanto, hoje é um dia de alegria para todos nós cariocas. Mais uma vez estou aqui na Igreja dos Capuchinhos, pelo 14º ano, que é uma honra para mim, poder estar celebrando esse grande santo protetor da nossa cidade".
Por conta chuva que caiu no município desde a noite de segunda-feira (19) e provocou transtornos, como alagamentos, quedas de árvores e bolsões d'água, Paes fez um apelo para que a população aproveite o feriado sem grandes deslocamentos. "Como é feriado, quem puder, dá um jeito de ficar perto de casa, prestigiar o comércio local, vai no restaurante, no bar, na igreja perto de casa, evite grandes deslocamentos, porque a gente vai ter chuva o dia inteiro".
À tarde, a partir das 16h, acontece a tradicional procissão, que sairá da Igreja do Capuchinhos em direção à Catedral Metropolitana, na Avenida Chile. O cortejo, que percorre cerca de 5 km, foi declarado patrimônio cultural do Rio em 2014. Ao fim do trajeto, haverá a apresentação do Auto de São Sebastião, seguida de uma missa.
Católicos exaltam padroeiro do Rio
Devota de São Sebastião, a aposentada Paula Gomes, de 78 anos, espera realizar o sonho de completar 80 anos em uma missa na Igreja dos Capuchinhos. A idosa lembrou que a admiração pelo padroeiro vem desde a infância e que se fortaleceu ao longo da vida, já que todos os anos vai ao santuário para celebrar a data e pedir a intercessão pela saúde do marido, dos filhos e netos.
"Cresci, me casei, mas todo ano eu estou aqui, não esqueço. São Sebastião é tudo na vida. Quando estou desesperada, eu me lembro daquela flecha dele e falo: 'Meu São Sebastião, me ajude de todo o meu coração, me tire dessa pressão'. Eu tomei um banho de chuva para chegar aqui, mas vim mesmo assim. Eu peço bênção para cinco filhos e sete netos, e que São Sebastião proteja meu marido, que está com um problema na garganta", disse a devota.
Para o casal Leonardo Oliveira, 42, e Aline Oliveira, 43, o Dia de São Sebastião é o momento de celebrar o milagre da vida da pequena Liz Maria, de 3 anos.
"Quando a minha esposa teve muito problema na gravidez, eu vim aqui e fiz uma promessa, porque eu sou devoto desde que minha avó me trouxe para igreja. Aí o nosso milagre aconteceu. Espero que ela siga os meus passos e também venha por vontade própria quando ficar maior", contou o motorista de aplicativo.
Comemorando o aniversário no mesmo dia do padroeiro do Rio, o autônomo Carlos Henrique Oliveira, 59, há 28 anos reúne familiares e amigos para abrir as celebrações em uma missa de São Sebastião, agradecendo e pedindo bênçãos para mais um ano de vida.
"Eu sou devoto desde criança, a minha mãe me trazia para a procissão. Isso acabou passando de geração em geração e hoje vem a família toda. Já fiz meus pedidos de proteção, de benção. Eu fico emocionado sempre, desde a primeira vez".
"A gente vem todo ano para começar o aniversário dele com uma missa e a benção de São Sebastião. Esse é o 28° ano que a gente está aqui e, esse ano, trouxe minha mulher e minha filha. Virou uma reunião de família, que foi passando de geração em geração", completou o administrador Bruno Ramos, 45.
O aposentado Antônio José, de 75 anos, esteve na Igreja dos Capuchinhos com a mulher, Vera Lúcia, com quem compartilha a devoção há 45 anos, e revelou uma relação especial com o santo.
"Quando eu era mais novo, eu tive um problema de saúde, mas graças a Deus, São Sebastião me curou. E daí para cá eu não parei mais de vir, assisto à missa, vou na procissão. Eu não andava e minha mãe fez uma promessa a São Sebastião e eu passei a andar, não tive mais problemas nas pernas. Sou muito grato a São Sebastião por tudo que fez por mim, minha família, meus netos".
A pensionista Edir Maria, de 75 anos, fez uma viagem de 10 horas de São Paulo para acompanhar a missa de São Sebastião ao lado da neta, a auxiliar administrativa, Aline Almeida, 34. A idosa destacou a importância da presença dos mais novos na igreja para o fortalecimento e renovação da fé.
"São Sebastião é tudo na minha vida. É uma devoção que foi passando de geração em geração. E hoje em dia é importante ver gente jovem dentro da igreja, para ter sempre essa renovação da fé", disse a idosa.
"Estou sempre aqui na igreja, venho todo domingo. Hoje, por causa da chuva, a gente quase desistiu, mas às vezes na fé, a gente tem que passar por alguns sacrifícios para valer à pena. A fé é também uma questão de provação. Já acendemos nossa vela, agradecemos e essa é a melhor forma de começar o ano bem", completou a auxiliar administrativa.
Emocionado, o corretor imobiliário Marcos Vinícius Matos, de 51 anos, se ajoelhou do lado de fora e chegou a beijar o chão da igreja. Ele exaltou São Sebastião e também Oxóssi, orixá da Umbanda, que também é celebrado em 20 de janeiro, por conta do sincretismo religioso entre as religiões de matriz africana e o catolicismo.
"É um santo que eu sou devoto, que tem uma história de guerreiro, não à toa é o padroeiro da cidade. Tudo isso me emociona e quanto mais você entregar sua alma e coração ao santo, você só vai ter benefícios. Eu vim aqui agradecer esse santo fortíssimo, e vou na Umbanda agradecer a Oxóssi".
Padroeiro de escolas de samba
São Sebastião é padroeiro de escolas de samba da cidade do Rio. Por isso, houve celebrações em quadras no município. Em Oswaldo Cruz, a Portela começou a comemoração com a alvorada, às 5h, e seguiu com missa, às 9h, carreata às 10h30 e terminou com um grande almoço às 12h.
O Paraíso do Tuiuti organizou o Cozido de São Sebastião, no Campo de São Cristóvão, a partir das 13h. A agremiação ainda se apresentou com todos seus segmentos.
São Sebastião
São Sebastião foi um soldado cristão nascido em Milão, na Itália, por volta do século III, embora algumas versões indiquem Narbonne, na França, como seu local de nascimento. Nas fileiras do exército romano, tornou-se um dos oficiais favoritos do imperador Diocleciano. Apesar disso, manteve-se fiel à fé cristã. Denunciado por professar sua crença, foi condenado à morte.
Amarrado a um tronco, foi atingido por flechas, mas sobreviveu. Após se recuperar, voltou a se apresentar ao imperador e o confrontou pelas injustiças cometidas contra os cristãos, acusando-o de agir contra o Estado. Surpreso com a ousadia, Diocleciano ordenou que Sebastião fosse açoitado até a morte. Ele foi executado em 20 de janeiro de 288.
Oxóssi
No mesmo dia em que os católicos comemoram São Sebastião, o Candomblé e a Umbanda, religiões de matriz africanas celebram Oxóssi, o orixá das matas. O guerreiro é conhecido por acertar seus alvos com uma flecha.
Oxóssi simboliza precisão e foco, com sua flecha de mira certeira, além de fartura e provisão, pois é o orixá da caça. Ainda há o símbolo do conhecimento e da sabedoria, por causa de sua função como caçador e das conexões com a natureza.
Assim como São Sebastião, Oxóssi também é um guerreiro. Com isso, há o sincretismo religioso entre as religiões.
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