Viúva de Leandro Silva, morador do Morro dos Prazeres, ficou muito emocionada durante o velórioReginaldo Pimenta/Agência O DIA

Rio - O velório do auxiliar de cozinha Leandro Silva Souza, de 30 anos, morto dentro de casa no Morro dos Prazeres, na Região Central, em meio a uma operação da PM, foi marcado por muita emoção e pedidos pelo fim da violência nesta sexta-feira (20) no Cemitério do Catumbi. A mulher da vítima, Roberta Hipólito, não saiu do lado do caixão nem por um momento e chegou a desmaiar durante a despedida.

Aos prantos, ela chegou a gritar repetidamente: "Acordar, meu amor. Vamos para casa". Ainda na cerimônia, amigos e familiares tentavam consolar Roberta enquanto rezavam pela alma de Leandro. O corpo será levado para o Piauí, sua cidade natal, onde será sepultado nesta tarde.


Roberta estava com o marido no momento dos disparos. Ela acusa policiais militares de terem entrado atirando dentro da sua residência. Já a PM alega que bandidos armados fizeram o casal refém e teriam atacado a equipe, iniciando a troca de tiros.
De acordo com o advogado que representa a família, Paulo Ascenção, a viúva deverá prestar depoimento na Delegacia de Homicídios em breve.
"Ela fez um pré-depoimento ontem, no IML, quando foi reconhecer o corpo, mas ela estava muito abalada, e continua. Então, está sendo marcado um novo depoimento, não tenho data ainda, mas é breve. A princípio, se for comprovado depois do inquérito que houve realmente uma culpa do Estado, a gente vai entrar com um processo para poder ter lucros cessantes, indenização por danos morais... tudo o que eles tiverem direito para poder ajudar a família", disse.
Entenda o caso
Segundo a Polícia Militar, o morador Leandro Silva Souza morreu baleado após ser feito refém por bandidos dentro da própria casa durante a operação de quarta-feira (18). Na ação, o chefe do tráfico do Morro dos Prazeres, Claudio Augusto dos Santos, o "Jiló", de 55 anos, e seis criminosos também morreram.
De acordo com o tenente-coronel Marcelo Corbage, comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), as equipes tentavam uma negociação quando foram atacadas a tiros e reagiram. Na residência, o morador acabou baleado e não resistiu.

"No momento de uma ação covarde, eles entraram na residência, colocaram um casal como reféns e no momento que a gente estava buscando uma solução pacífica, uma negociação, houveram disparos de dentro da residência, na qual o senhor Leandro acabou sofrendo o primeiro PAF na região da cabeça. Então a nossa tropa respondeu imediatamente o fogo, onde houve essa ação de neutralização desses seis criminosos", explicou o coronel.
A mulher da vítima, também feita refém, precisou ser amparada, mas não sofreu ferimentos. "A gente conseguiu tirar ela com segurança, em estado de choque, e nós estamos agora conduzindo ela para que possa prestar todo depoimento", acrescentou Corbage.

Roberta, no entanto, desmente a versão da PM. "Em momento algum fizeram a gente de refém. Eles [bandidos] disseram assim: 'Tia, não se preocupe. Se a polícia vier, a gente vai se entregar. Mas fica calada. Foi a polícia que arrebentou a porta da minha casa com uma granada e já entrou atirando. Não teve troca de tiros. Os três elementos que estavam dentro do meu quarto morreram sem reagir. O meu marido ainda gritou: 'Tem trabalhador aqui, tem morador'. Mas a polícia entrou atirando", afirmou.
Após as acusações da viúva, a PM informou que há um procedimento interno em andamento para esclarecer todos os fatos.
Confira a nota na íntegra:
"A Secretaria de Estado de Polícia Militar lamenta a morte de Leandro Silva Sousa ocorrida durante uma operação policial, na localidade do Morro dos Prazeres, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

A Assessoria de Imprensa da Corporação esclarece que, assim como acontece em todas as ocorrências com resultado morte, o caso que resultou no óbito do morador e de outros seis acusados é alvo de procedimento apuratório interno, além da investigação da Polícia Civil.

Somente após a realização da perícia técnica será possível determinar, com precisão, todos fatos e circunstâncias ocorridos durante a ação desta quarta-feira (18).

Ressaltamos que a Corporação preza pela transparência de suas ações e colabora integralmente com as investigações do caso."