Rio - A Operação Sem Refino, deflagrada pela Polícia Federal nesta sexta-feira (15), teve como alvos, além do ex-governador Cláudio Castro, o empresário Ricardo Andrade Magro, apontado como dono do grupo considerado o maior devedor de impostos do país, além de autoridades públicas, entre elas um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio. As investigações apuram suspeitas de fraudes fiscais, ocultação de patrimônio e irregularidades relacionadas à operação da refinaria ligada ao Grupo Refit.
Veja quem são os principais alvos da operação:
Ricardo Andrade Magro, dono do Grupo Refit
Contra Ricardo Andrade Magro foi expedido um mandado de prisão preventiva, e a Polícia Federal pediu sua inclusão na lista de Difusão Vermelha da Interpol. Magro é ex-advogado do ex-deputado federal Eduardo Cunha, preso em 2016 sob acusação de desvios em fundos de pensão e posteriormente absolvido.
O empresário assumiu o controle da antiga Refinaria de Manguinhos, hoje Grupo Refit, em 2008. Segundo as investigações, o grupo é suspeito de integrar um esquema de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.
Em 2016, Magro foi preso durante uma investigação sobre supostos desvios de recursos dos fundos de pensão Petros e Postalis. O caso envolvia investimentos em empresas do Grupo Galileo, do qual ele era sócio. Magro foi absolvido.
No fim de 2024, a Polícia Civil investigou a suspeita de que Magro teria usado 188 empresas para praticar crimes fiscais e lavar dinheiro. Em agosto do ano passado, ele também foi citado na Operação Carbono Oculto, que apurou a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis. Na ocasião, afirmou estar sendo "perseguido" e "ameaçado". Em julho de 2025, o Ministério Público de São Paulo apontou a Refit como uma das empresas supostamente utilizadas em esquemas de sonegação e adulteração de bombas de combustíveis.
Segundo a CNJ, foram identificadas irregularidades em decisões relacionadas ao processo de recuperação judicial da Refit. A apuração teve início após uma reclamação da Fazenda Nacional.
Na operação de hoje, a investigação aponta que o desembargador foi "cooptado" pelo esquema de fraudes atribuído ao empresário Ricardo Magro. A PF atribui a Guaraci ligação com a estrutura supostamente montada por Magro para gestão fraudulenta, lavagem de capitais e crimes contra a ordem econômica no setor de combustíveis.
Juliano Pasqual, ex-secretário estadual de Fazenda
Juliano Pasqual assumiu o comando da Secretaria de Estado de Fazenda em 31 de janeiro de 2025, nomeado por Cláudio Castro. Foi exonerado no fim de abril pelo governador em exercício, Ricardo Coutinho.
Antes de atuar no governo do Rio, Pasqual foi subsecretário de Economia do Distrito Federal, diretor de Administração e Finanças do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária e diretor-geral da Fundação Paulistana.
Na operação deflagrada hoje, a PF aponta que o ex-secretário integrava um grupo que atuava para facilitar processos de empresas favorecidas e, simultaneamente, obstruir ou dificultar o andamento de processos de empresas concorrentes.
Com base em troca de mensagens coletadas durante a investigação, a PF concluiu que a Secretaria de Estado de Fazenda, durante o comando de Pasqual, virou uma extensão da estrutura empresarial do Grupo Refit.
Álvaro Barcha Cardoso, intermediário do Grupo Refit
Álvaro Barcha Cardoso é apontado pela Polícia Federal como um articulador do Grupo Refit, com acesso à Secretaria de Estado de Fazenda e influência sobre decisões do governo Cláudio Castro. De acordo com a investigação, mensagens encontradas no celular de Álvaro indicam tentativas de interferência em processos administrativos.
Em uma conversa citada pela PF, ele teria pedido a manutenção da cassação do registro de uma empresa. Em resposta, um auditor afirmou que poderia impedir a inscrição estadual e cancelar o recadastramento da companhia. A PF também afirma que arquivos no celular mostram Álvaro ostentando grandes quantias em dinheiro e mantendo contato frequente com auditores fiscais, subsecretários e com o então secretário Juliano Pasqual.
Segundo os investigadores, essa rede de relacionamentos teria sido usada para acompanhar processos, antecipar decisões e influenciar a lotação de servidores em áreas estratégicas da secretaria. Na decisão que autorizou a operação, o ministro Alexandre de Moraes afirmou que há indícios de que Álvaro atuava como elo entre interesses privados e agentes públicos, com possível obtenção de vantagens indevidas e interferência no funcionamento da administração pública.
Renan Saad, ex-procurador-geral do estado do Rio de Janeiro
Renan Saad, ex-procurador-geral do Estado, também foi exonerado pelo governador em exercício em abril, assim como Pasqual. Para o cargo, foi nomeado novamente Bruno Teixeira Dubeux, que, segundo a investigação, teria deixado o posto anteriormente por não concordar com a defesa dos interesses da Refit.
Sobre a participação dele, que à época era procurador-geral do Estado, a Polícia Federal afirma que ele atuou em defesa dos interesses da Grupo Refit. Segundo a denúncia, mesmo com a empresa acumulando dívidas tributárias e sendo alvo de suspeitas de sonegação de impostos, a Procuradoria-Geral do Rio apresentou à Justiça um parecer favorável para que a Refit voltasse a operar. A refinaria havia sido interditada em setembro de 2025, após a Operação Cadeia de Carbono.
O documento foi assinado por Renan Saad e, de acordo com a PF, teria sido elaborado a pedido do então governador Cláudio Castro. No parecer, o governo argumentou que a paralisação da refinaria poderia reduzir a arrecadação do estado do Rio, que já enfrentava dificuldades financeiras, e comprometer o pagamento de parcelas de um acordo firmado entre a empresa e o governo.
No pedido que autorizou buscas na residência de Saad, a PF afirma que há indícios de que o grupo atuava para defender interesses de grandes empresas, entre elas o conglomerado econômico ligado à Refit, a Pinecrest Distribuidora S.A. e outras companhias do mesmo setor.
Outros alvos da Operação Sem Refino
Adilson Zegur - ex-subsecretário de Receita da Sefaz/RJ Renato Jordão Bussiere - ex-presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) Márcio Cordeiro Gonçalves - escrivão da Polícia Federal Márcio Pereira Pinto - escrivão da Polícia Federal Maxwell Moraes Fernandes - policial civil do Rio de Janeiro Jonathas Assunção Salvador Nery De Castro - integrante do núcleo empresarial vinculado à Refit Jose Eduardo Lopes Teixeira Filho - operador no núcleo administrativo-fiscal do esquema vinculado à Refit Roberto Fernandes Dima - integrante do núcleo empresarial vinculado à Refit
A reportagem tenta contato com as defesas de Ricardo Andrade Magro, Guaraci Vianna, Juliano Pasqual, Álvaro Barcha Cardoso e Renan Saad. O espaço está aberto para manifestação.
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.