Luiza ,Antônia, Giovana Nilban, Cláudio e Carlos AlbertoÉrica Martins/Agência O DIA

Rio - Faltando menos de uma semana para a Copa do Mundo, moradores da Rua Taturana, em Vicente de Carvalho, Zona Norte, finalizam os últimos preparativos para colorir a via e reunir torcedores nos dias de jogos. Vencedores do concurso promovido pelo Jornal O DIA de 1998, eles relembram a tradição iniciada há mais de 40 anos e revelam a expectativa de ganhar um novo prêmio pela decoração no campeonato organizado pela Prefeitura do Rio. A iniciativa também ganhou força em outros bairros, como Bento Ribeiro, Tijuca, Vila Isabel e Rocinha.


Um dos organizadores, o aposentado Niblan da Silva, 75 anos, contou que os primeiros enfeites começaram no muro de um vizinho, com apenas duas bandeiras e um mascote em 1982. Nas Copas seguintes, a ideia ganhou força e começaram os preparativos.

"Em 1998, no muro do seu Geraldo, eu fiz 94 bandeiras e estava tão caprichado que ele me perguntou porque eu não me inscrevia no Jornal O DIA. Aí ele me deu o jornal, eu li o regulamento, me inscrevi e fizemos mais cinco desenhos no chão, mais as bandeiras e ganhamos", lembrou.

A história é relembrada justamente no dia em que o jornal completa 75 anos. À equipe, ele mostrou o prêmio e revelou que os moradores ganharam 29 televisões de 29 polegadas, que eram lançamento na época.

A rua também venceu outros concursos, em 2007, durante os Jogos Pan-Americanos, no Rio, e em 2010, pela Copa do Mundo, na África do Sul.

Niblan explica que a tradição chegou a "esfriar" após o Brasil perder de 7 a 1 para a Alemanha em 2014, mas que a expectativa para este ano é grande. Segundo ele, ainda assim, o objetivo principal é reunir as crianças.

"Na Copa passada, um vizinho falou: 'Não vamos deixar a peteca cair, não. As crianças precisam ter esse engajamento, eles não viram isso que a gente passou aqui'. E eu sempre pensei nisso. Tem um outro muro em que eu promovia um concurso com as crianças, em que os melhores desenhos iam para lá. Ou seja, as que sabiam desenhar no papel e nunca tinham desenhado no muro, passaram a desenhar. É um aprendizado para eles”, contou.

O aposentado frisou que espera ganhar o concurso da prefeitura, mas que a maior satisfação é ver a união dos moradores e a alegria dos mais novos.

"Isso é muito alegre e contagiante para mim. Esse ano eles fizeram uma programação ultra rápida pela internet. Convocamos um mutirão e, no fim de semana passado, umas 80 crianças apareceram aqui. Todo mundo veio pintar e não tinha nem mais espaço, estava muito bonito. A expectativa é grande de ganhar, mas primeiro a gente estava fazendo só para encantar as crianças, esse era nosso objetivo. Agora conseguimos uns amigos que vieram pintar para gente e está ficando lindo”, acrescentou.

Tradição passada entre gerações

Outro morador que acompanha a decoração desde o começo é o aposentado Carlos Alberto, 69 anos. Ele destaca que toda a família fez parte da decoração, tanto os irmãos, quanto os filhos e agora os netos.

"Esse ano voltamos com tudo. Todo mundo se junta, fazemos um Pix e quem pode ajudar, ajuda. Além de nós, temos amigos que vêm de fora e ajudam nos desenhos. Nós vamos até 2h a 3h e começamos cedo, mas vamos. Não temos mais desenhos prontos por causa da chuva, então a expectativa é terminar no domingo", explicou.

Alguns dos desenhos, como os mascotes e as bandeiras, são tradição desde 1982. "É um prazer nosso ver as pessoas passarem e elogiarem nossa rua, inclusive vem gente de fora nos visitar, assim como visitamos outras ruas. Apesar de sermos concorrentes, não somos inimigos", reiterou.

O vizinho e engenheiro, Cláudio Maravilha, 38, revelou a sensação de nostalgia em poder passar para as crianças o que ele viveu no passado.

"Hoje a gente vê como uma obrigação fazer isso para as crianças, da forma mesma com que foi feito pela gente um dia. Quando as crianças estão pintando, a gente se enxerga neles, dá uma nostalgia. Isso começou em 1982 e a gente passa isso para nossos filhos, amigos, vizinhos, colegas de trabalho. O grande objetivo é tirar as crianças do telefone e vir aqui pintar o Neymar. Aqui, elas estudam Geografia, conhecem as bandeiras dos países, colocam a mão na massa", reforçou.

Além do trabalho lúdico com os mais jovens, Cláudio também falou sobre o esforço dos moradores. "Além do trabalho emotivo, tem toda uma equipe virando noite, fazendo um trabalho técnico com cada medida de bandeirinha. O objetivo é participar de fato dos concursos e ser campeão. Vai ter o Neymar, o Cristo fluorescente, vamos fazer uma mureta da fama, com os que fizeram parte disso tudo", ressaltou.

O engenheiro também comentou a expectativa pelo hexa. "A gente ficou um tempo sem fazer. Estávamos desacreditados por conta das derrotas, mas esse suspense todo com o Neymar deu uma revigorada nos torcedores. Tem gente que não se fala o ano todo, mas chega na Copa esquecem as divergências. O negócio é todo mundo pelo mesmo objetivo e, se depender da gente, a taça já tá vindo pro Rio", frisou.

Crianças revelam torcida pelo hexa

As primas Giovana Aleixo, 14, e Luisa Aleixo Manhães, 11, participam da decoração da rua e acreditam que o Brasil conquistará o título da Copa do Mundo.

"A gente está muito confiante que o Hexa vem esse ano. Estamos muito felizes. E é bom fazer essa pintura, reunir os amigos. É muito legal, eu ajudei a fazer todas as pinturas das paredes, do calçadão, aqui no chão. E vamos fazer mais e mais", contou Giovanna

"É muito legal e eu amo colorir também. Eu colori e fiz o desenho lá na parede. O futebol é uma inspiração para os desenhos. Eu acho bem interessante pintar. De manhã cedinho a gente já está aqui na rua para pintar e de noite a gente continua assim. A gente dá uma pausa para descansar, porque também não tem como acordar no outro dia, né? Mas é muito legal", afirmou Luisa.

Também moradora da rua, a pequena Antônia Liz, 8, participa da sua segunda Copa e falou a O DIA que espera o título.

"É legal, tá sempre passando de geração para geração. Meus amigos pintam também, eu acho que esse ano o Hexa vem. Antes, o Neymar era o melhor jogador, agora não, mas vai que", brincou.

Preparação e transmissão

Em meio aos preparativos, a cabeleireira Tânia Alves, 56, contou que garante a comida para os voluntários. Moradora da rua desde que nasceu, ela também acompanhou gerações que fizeram parte das decorações ao longo dos anos.

"Minha mãe nasceu aqui, eu estou junto com eles desde o começo de tudo mesmo. Estou animada para ganhar mais prêmios, mas agora eu fico na parte da alimentação. Faço comida para todos, mas já pintei bastante. E é importante esse apoio, porque os antigos que eram mais os cabeças. A maioria se foi. Agora vem os filhos, netos, e eles trabalham, precisam se alimentar, então eu faço, com apoio também de algumas meninas, mas eu sou a cabeça da comida agora. A expectativa é de que sejamos campeões, com muita fé", explicou.

Em homenagem aos moradores antigos, os vizinhos pretendem realizar um mural com todas as pessoas que já passaram pela rua.

Uma das desenhistas convidadas, a artesã e grafiteira Bruna Soares, conhecida como Moma, 40, saiu de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, para participar da pintura.

"Eu fui convidada para participar desse evento e, aqui, fiquei conhecendo a história da rua. Achei bem interessante os registros que eles têm, dos anos que eles ganharam. E eu espero que a gente ganhe. Nós estamos nessa torcida e estamos enfeitando para dar esse incentivo. Estou bem animada porque a rua vai ficar cheia em dia de jogo", contou.

Também morador do local, o motorista de aplicativo Wagner Magalhães, 42, relembrou que começou a participar da tradição quando ainda era adolescente, em 1998.

"Esse ano a gente resolveu voltar com força total para pintar a rua, fazer um movimento maior. As últimas copas foram bem fracas, desanimadas. Mas esse ano a gente voltou com força total. A expectativa aumenta a cada dia que passa", disse.

A rua contará com um telão para transmissão dos jogos. "A gente bota uma tenda, que vai ficar montada direto até o final da Copa. A gente vai montar um telão para o pessoal vir ver o jogo do Brasil e confraternizar", finalizou.
Os jogos estreiam no dia 11 de junho. Já o Brasil tem a primeira partida marcada para o dia 13, às 19h, contra o Marrocos.
Outras ruas aderiram a decoração
Perpetuando a tradição, moradores de um trecho da Pereira Nunes, em Vila Isabel, e da Rua Carlos Vasconcelos, na Tijuca, coloriram o asfalto, além de muros e os postes com bandeiras e desenhos em homenagem à Seleção.
Na Rocinha, na Zona Sul, os torcedores coloriram a Via Ápia, principal rua da comunidade, com desenhos e bandeiras que revelam a expectativa pelo campeonato. O projeto, que contou com a participação de 35 pintores locais e mais de 80 voluntários, começou a ser produzido quando ainda faltava um mês para a Copa.
Em Bento Ribeiro, também na Zona Norte, o local conhecido como Praça do Espirro do Grilo também ganhou cores e desenhos.
Concurso da Prefeitura
Promovido pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC), em parceria com o Gabinete do Prefeito, o concurso carioca de decoração de rua "Acreditar é uma Arte: O Rio nas Cores do Hexa" vai distribuir R$ 100 mil em prêmios para ruas, vilas e travessas que realizarem decorações temáticas para a Copa do Mundo de 2026. A iniciativa busca valorizar a ocupação cultural dos espaços públicos e fortalecer as tradições comunitárias da cidade. 
O concurso contemplará as três ruas mais bem classificadas, sendo: R$ 50 mil para o 1º lugar; R$ 30 mil para o 2º; e R$ 20 mil para o 3º.

Além da premiação financeira, as 20 iniciativas com maior pontuação receberão uma placa comemorativa em reconhecimento à criatividade e à mobilização local. As decorações — que podem incluir pinturas artísticas, bandeirinhas, painéis e instalações — serão avaliadas sob critérios de criatividade, originalidade, coerência estética com o tema e capacidade de transformação do espaço. 
As inscrições são gratuitas e podem ser feitas através do site da Secretaria Municipal de Cultura até às 18h do dia 10 de junho. Podem participar pessoas físicas maiores de 18 anos, residentes no município, que atuem como representantes de suas respectivas ruas e comprovem a participação coletiva dos moradores na ação. 
*Colaboração Érica Martin