Familiares e amigos compareceram ao velório de Luiz Carlos Barreto no ÉricPalácio da Cidade, em Botafogo, na Zona Sul do RioÉrica Martin / Agência O DIA
Familiares e amigos se despedem do produtor Luiz Carlos Barreto no Rio
Diretor morreu aos 98 anos nesta quarta-feira (22), após ficar internado por uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia
Rio - A despedida do produtor Luiz Carlos Barreto reuniu dezenas de amigos, familiares e admiradores no Palácio da Cidade, em Botafogo, na Zona Sul, na manhã desta quinta-feira (23). Considerados um dos principais nomes do cinema brasileiro, o diretor morreu aos 98 anos, nesta quarta-feira (22), após ficar internado por uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia.
A despedida foi marcada por homenagens. Luiz Carlos recebeu aproximadamente 30 coroas de flores, enviadas, por exemplo, pela Academia Brasileira de Cinema e pelo Museu de Arte Moderna. Um fã deixou uma mensagem de carinho por meio de uma placa, mencionando o apelido do diretor: "Vai com Deus, Barretão".
No mesmo local, às 14h, irão realizar uma missa. O corpo do diretor será cremado em uma cerimônia restrita à família, às 15h30, no Memorial do Carmo, no Caju, na Zona Portuária.
Filho do produtor, o diretor Bruno Barreto contou como era a personalidade do pai. "Era uma pessoa muito afetiva. Ele podia brigar com você agora de vida ou morte e cinco minutos depois ele te abraçava, fazia as pazes. Ele era um cara passional, mas ao mesmo tempo muito racional. São paradoxos, mas ele depois se acalmava e era uma pessoa muito afetiva e muito construtiva".
O primogênito disse que ainda se surpreende com o legado deixado pelo patriarca, ao recordar um registro feito por ele que entrou para a história, quando a seleção brasileira venceu a sua primeira Copa do Mundo, em 1958. "O meu pai estava fotografando o Bellini com a taça e tinham muitos fotógrafos na frente dele. Aí ele disse para o Bellini: 'Levanta a taça'. E ele fez a foto. A partir daí virou, um hábito de toda a Copa do Mundo o capitão do time levantar a taça. [...] Embora eu tenha convivido com o meu pai por 71 anos, eu continuo descobrindo histórias dele que não conhecia", revelou Bruno.
Sob forte emoção, a filha de Luiz Carlos, Paula Barreto, refletiu sobre a mensagem que o pai deixou. "Acho que a maior mensagem que ele deixa é a humana. [...] Eu acho que ele gostaria que a população brasileira tivesse menos radicalismo, menos rancor e mais empatia. Porque esses são valores que deveriam nortear a vida de todos nós".
A produtora, ainda, ressaltou a importância do cinema para o diretor. "Todos os problemas que a indústria cinematográfica vive hoje no Brasil foram motivos de luta dele a vida inteira. Meu pai sempre pensou no todo, na indústria do cinema como no todo. Se você perguntasse para ele qual era o partido político, ele falaria: 'Eu sou do partido do cinema brasileiro. Eu não tenho partido, eu não sou direita, eu não sou esquerda, eu quero lutar pelo cinema'", afirmou Paula.
O diretor estava com a saúde fragilizada desde março de 2024, quando sofreu uma queda durante uma visita ao Ceará, seu estado natal. "Eu perdi um companheiro, mas eu tenho certeza que ele está bem, ele descansou. Ele estava sofrendo desde quando teve esse acidente há dois anos e quatro meses atrás. Não era mais meu pai, não era. Era uma pessoa que estava sofrendo muito. [...] Não merecia prolongar mais a vida dele no estado que ele estava", falou a produtora, com a voz embargada.
Os dois são frutos do casamento do diretor com a produtora Lucy Barreto, com quem era casado há 75 anos. O casal teve mais um filho, Fábio Barreto, que morreu aos 62 anos em novembro de 2019, no Hospital Samaritano, no Rio. O cineasta, ator, produtor e roteirista estava em coma desde dezembro de 2009, após sofrer um grave acidente de carro em Botafogo, na Zona Sul.
O jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira esteve presente e exaltou o legado profissional do produtor, ao citar a relação pessoal com Luiz Carlos. "Ele também era meu amigo. Um fotógrafo de muita qualidade. [...] Ele vem de uma geração de fotógrafos cearenses muito interessantes", homenageou ele.
O ator Chico Díaz também ressaltou a importância do diretor para as telonas e deu detalhes de como era a amizade entre eles. "Ele inventou e reforçou a argumentação do cinema nacional soberano. Inventou muitos talentos, geral muito valor cultural para o países inteiro. [...] [Como amigo ele era] muito franco, solidário, valente, expansivo e muito corajoso. Uma fibra humana rara. Ele encarava qualquer desafio com muita tenacidade e humor. O humor cearense é muito bom".
Carreira
Luiz Carlos nasceu em 1928, na cidade de Sobral, no interior do Ceará. Ele iniciou a carreira em 1961, como fotógrafo da revista O Cruzeiro. Ao lado de Roberto Farias, escreveu o roteiro de "O assalto ao Trem Pagador" (1962). Fez a fotografia de "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos, que conquistou o prêmio Oficina Católica Internacional do Cinema (OCIC) no Festival de Cannes em 1964.
Em 1965, deixou o jornalismo para se dedicar ao cinema, fundou a distribuidora Difilm. Ao lado de Lucy, fundou a L.C. Barreto. Desde então, foi coprodutor de "Terra em Transe" (1967), de Glauber Rocha e produtor de muitos filmes, como "Garrincha, Alegria do Povo" (1963), de Joaquim Pedro de Andrade, "Bye Bye Brasil" (1979), de Carlos Diegues, e "Memórias do Cárcere" (1983), de Nelson Pereira dos Santos.
Também produziu mais longas-metragens, incluindo "Bela Donna" (1998), de Fábio Barreto (1957-2019), "Uma aventura de Zico" (1999), de Antonio Carlos da Fontoura, "Bossa Nova (1999)", de Bruno Barreto, e "O caminho das Nuvens" (2003), de Vicente Amorim.
Dois filmes produzidos por ele e dirigido pelos seus filhos, Fábio e Bruno, respectivamente, concorreram ao Oscar: "O Quatrilho (1996)" e "O que é isso, companheiro?" (1997). Também produziu um dos filmes mais vistos da história do cinema brasileiro, "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), dirigido por Bruno.











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