Por causa da violência, o dono do estabelecimento resolveu fechar as portasDivulgação

Se em 1594 a dúvida era sobre quem herdaria as sesmarias (grandes lotes de terras distribuídos para ocupar e cultivar áreas improdutivas), o que já foi uma vasta área bucólica hoje se transformou em terra de ninguém. Jacarepaguá, dividido em vários subbairros, vem apresentando altos índices de violência.O Instituto de Segurança Pública (ISP) divulgou, neste mês, os índices de criminalidade referentes a julho de 2026, mostrando um avanço de 25% na letalidade violenta em relação a julho de 2025 — 301 vítimas no estado, contra 240 no ano passado. Esse indicador soma homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte, feminicídio, morte por intervenção de agente do Estado e latrocínio.
Das 41 Áreas Integradas de Segurança Pública (AISP) do estado, apenas cinco concentraram um terço de toda a letalidade violenta em julho. A área do 18º BPM (Jacarepaguá), na Zona Sudoeste, liderou esse ranking, com 25 mortes violentas atribuídas à disputa territorial entre o Comando Vermelho e milicianos.
A escalada da violência na região Sudoeste do Rio de Janeiro começa a produzir efeitos que vão além da insegurança diária enfrentada pelos moradores. Em Jacarepaguá, o avanço da criminalidade preocupa comerciantes e empresários, ameaçando a chegada de novos investimentos, a manutenção de empregos e o desenvolvimento econômico local.
Um exemplo recente é o Grupo Lokos Por Açaí, que anunciou a suspensão temporária das atividades de sua unidade em Curicica. Segundo a empresa, a decisão foi tomada diante do atual cenário de segurança pública, tendo como prioridade preservar a integridade de funcionários, clientes e parceiros.
Para o empresário Fábio Vaz, do Grupo Lokos Por Açaí, a decisão foi difícil, mas necessária. "Não foi uma escolha fácil, mas foi a decisão certa. Antes de qualquer resultado ou venda, vêm as pessoas: nossos colaboradores, clientes e parceiros. Estamos fazendo uma pausa consciente e responsável, acompanhando de perto a situação. Assim que houver condições seguras, queremos reabrir nossas portas em Curicica", afirma. A empresa destacou que a medida não representa um encerramento definitivo.
O problema, contudo, é generalizado: comerciantes deixam de investir, consumidores evitam determinadas áreas, funcionários enfrentam dificuldades para circular e novos empreendedores desistem de abrir negócios. Relatos de comerciantes das ruas Pintibu e Abadiana, e das estradas Virgolândia e Santa Maura, no Camorim e em Curicica, confirmam a rotina difícil. Assim como o proprietário da rede de açaí, outros empresários locais fecharam seus estabelecimentos por medo.
Esses episódios acendem um alerta: quando a insegurança afeta a operação das empresas, todo o bairro perde. A preocupação é que o cenário provoque um efeito em cadeia — menos empresas significam menos empregos, menor circulação de renda e, consequentemente, escassez de oportunidades. Jacarepaguá é uma das regiões mais populosas e importantes do Rio de Janeiro, com forte vocação comercial e de serviços.
Além da violência armada, moradores e comerciantes enfrentam a extorsão da "taxa da barricada". No fim do ano passado, um comerciante denunciou a cobrança de valores que variavam entre R$ 200 e R$ 1.000.
Na quinta-feira (27), dois policiais militares foram presos em uma operação do Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ), com apoio da Corregedoria-Geral da PM. Eles são acusados de envolvimento com a milícia atuante em Curicica, na Zona Sudoeste, e com o Terceiro Comando Puro (TCP). Segundo a denúncia, Jorge Anastácio Rodrigues Simões, lotado no 4º BPM (São Cristóvão), e Leo Carlos Araújo Santos, do 2º BPM (Botafogo), forneciam e intermediavam a compra de armas e munições para as organizações.
De acordo com o MPRJ, a milícia de Curicica possui estrutura hierarquizada. André Costa Bastos, conhecido como Boto ou Redbull, mesmo preso no sistema penitenciário federal, seria o responsável pelo comando estratégico, enquanto Osmar Silva de Souza, o Messi ou Novinho, exerceria a liderança operacional. "A organização tem como fontes de financiamento a cobrança extorsiva de moradores e comerciantes, além do roubo sistemático de veículos e cargas em Jacarepaguá e regiões próximas", explicou o órgão.criminosas.
Alguns casos recentes
Uma operação policial do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) na Cidade de Deus, na Zona Sudoeste do Rio, provocou tiroteios, bloqueios de vias e incêndios na madrugada de quinta-feira (27).

Durante a ação, a Polícia Militar chegou a interditar a Estrada Miguel Salazar de Moraes nos dois sentidos. Também houve registro de ao menos 2 ônibus atravessados na via e de contêineres de lixo incendiados por criminosos.
Operação na Boiúna: Um suspeito morreu e outro ficou ferido durante uma operação de inteligência do 18º BPM na localidade da Boiúna, na Taquara, na quarta-feira (26). A equipe investigava uma falsa blitz organizada por criminosos.
Disputas e bloqueios: Neste mês, disputas territoriais causaram três mortes na região. Criminosos bloquearam vias na Gardênia Azul e em Curicica. Em maio, a PM já havia realizado uma ocupação por tempo indeterminado na Gardênia Azul.
Impacto nas escolas e restaurantes: Uma escola na Avenida Tenente Muniz de Aragão, no Anil, contratou um funcionário exclusivo para vigiar o portão e monitorar a movimentação de motocicletas, relatando perda de alunos devido à insegurança. No mesmo bairro, o tradicional restaurante Vista Alegre, fundado há 70 anos, passou a fechar mais cedo devido a constantes tentativas de extorsão.
Tiroteios recorrentes: Apenas em agosto, foram registrados confrontos na comunidade do 15 e Dois Irmãos (Estrada André Rocha, em Curicica) no dia 1º, e na Rua Bacairis (Taquara) no dia 19, além de constantes ataques entre facções rivais na Zona Sudoeste.
Policiamento ostensivo intensificado
Em nota, a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar (SEPM) informou que o 18º BPM atua na região com rondas de viaturas e motopatrulhas, além do reforço do Regime Adicional de Serviço (RAS), com base no mapeamento da mancha criminal.
A unidade afirma que segue intensificando o policiamento ostensivo nos horários de maior incidência de crimes e realizando abordagens contínuas. A SEPM reforça a importância do acionamento imediato via Central 190, do aplicativo RJ 190 e do registro de ocorrências nas delegacias da região para o direcionamento efetivo das patrulhas.