Trabalhadores do Rock in Rio reclamam de condições no transporte na volta para casaArquivo/ Agência O Dia

Rio - Caminhadas de mais de 2 km após jornadas de 12 horas, estações fechadas e assaltos no percurso. Essas são algumas das denúncias feitas por trabalhadores que atuam no Rock in Rio 2026 após uma série de percalços nos quatro dias de festival, na Cidade do Rock, na Zona Sudoeste. As queixas chegaram à vereadora Thais Ferreira (PSOL), que protocolou dois ofícios em caráter de urgência, direcionado ao secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes, e à presidente da Mobi-Rio, Claudia Secin.
Entre as principais reclamações estão as condições de acesso ao BRT pelo Terminal Centro Olímpico após o encerramento do expediente. Segundo os relatos recebidos por O DIA, trabalhadores estão sendo impedidos de acessar o terminal para usar o transporte coletivo mediante o pagamento da tarifa regular, no valor de R$ 5. Como alternativa, funcionários da Mobi-Rio, responsável pelo transporte na região, orientam os trabalhadores a utilizar o BRT Expresso Rock in Rio, cuja tarifa especial é de R$ 29.

Aqueles que não aceitam pagar pelo serviço especial precisam caminhar aproximadamente um quilômetro ou mais até outras estações para acessar o sistema.

"A gente sai do evento pelo Portão 3, que é basicamente a 50 metros da estação do Centro Olímpico. É a estação mais próxima para a gente conseguir embarcar com segurança e rapidez para chegar em casa. No entanto, os funcionários do BRT estão impedindo a gente de fazer esse acesso por ali pagando a tarifa regular de R$ 5. Eles querem que a gente vá pela saída do público, que é a saída mais longa para nós, e pague R$ 29 no BRT Expresso Rock in Rio. Outra opção seria caminhar até o Riocentro, Asa Branca ou Rede Sarah, que são as estações mais longe do nosso portão. Então, a galera está super sobrecarregada, porque a gente já trabalha em pé e, quando sai de lá, sai exausto", relatou um colaborador que não quis ser identificado. 

Conforme informado pela própria Mobi-Rio nas redes sociais, no retorno, os trabalhadores que saírem pelo Portão 3 poderão acessar o Terminal Centro Olímpico entre 4h e 23h. Entre 23h e 4h, horário em que muitos encerram o expediente, estarão disponíveis, no entorno da Cidade do Rock, as estações Riocentro, Rede Sarah e Asa Branca, que funcionam 24 horas durante o evento.
A concessionária diz ainda que a Estação Riocentro é a opção mais próxima para quem sai pelo Portão P3, pois a distância entre os dois pontos seria de aproximadamente 750 metros. No entanto, segundo os trabalhadores, a distância mencionada não procede, já que o percurso possui grades, o que obriga os colaboradores a fazerem um caminho ainda mais longo. Ainda segundo os denunciantes, o acesso às estações Riocentro, Rede Sarah e Asa Branca exige caminhadas de 1 km a 3 km. 

Ao O DIA, os funcionários explicam que não estão se queixando de pagar a tarifa regular, mas desejam embarcar na estação mais próxima do evento, junto com os passageiros que adquiriram o BRT Expresso Rock in Rio.

"É inadmissível fechar a catraca do BRT a partir das 23h, tendo em vista que o evento termina depois das 4h para quem trabalha. Quando a gente questiona o motivo, eles dizem que fecham a estação para manter a ordem para os clientes que pagaram R$ 29. Só que seria muito fácil fazer essa separação entre os clientes e nós, trabalhadores, pois temos credencial com QR Code, foto e nome da pessoa. Se eles têm funcionário para colocar lá na catraca principal e dizer que não pode entrar, poderiam colocar esse funcionário justamente para pedir a credencial de quem está trabalhando", indaga outro trabalhador ao O DIA.

Outro funcionário complementa: "Eu não estou pedindo gratuidade. Inclusive, estou disposto a pagar normalmente a passagem de R$ 5. O que estamos pedindo é uma solução digna e razoável para quem passa horas trabalhando no evento e, ao final do expediente, ainda precisa caminhar quilômetros para conseguir acessar o transporte público. O mínimo que esperamos é ter uma saída segura, organizada e compatível com a nossa condição de trabalhadores".

Uma outra denunciante relata que há idosos entre os funcionários que precisam fazer a caminhada. "Depois de passar horas trabalhando em pé, ainda precisamos enfrentar uma longa caminhada, muitas vezes no escuro. Caminhei inclusive ao lado de senhoras que trabalham na limpeza. O cansaço estava estampado no rosto delas. Eu, sendo mais nova, já estava extremamente cansada, fico imaginando o esforço para essas senhoras, que também passaram horas trabalhando", diz.
Insegurança dentro do BRT

Também há queixas sobre a falta de segurança, inclusive dentro dos ônibus articulados. "Depois de passar por tudo isso, assim que nós entramos no BRT, além de ele estar lotado, temos que dividir com moradores de rua que vêm com sacos cheios de latas e acabam sujando todo mundo, batendo nas pessoas. Também há pessoas que fazem pequenos furtos e gente armada dentro do BRT. Em Madureira, a estação está abandonada. Vários trabalhadores foram assaltados", diz.

A colaboradora reclama ainda da atenção que a categoria tem recebido. "Ficamos tristes porque eles dizem que a gente faz parte do festival, mas não sentimos isso. Nos sentimos humilhados na hora de voltar para casa", se queixa.

Além dos transtornos com o transporte público, os trabalhadores se queixam da insegurança no caminho de volta para casa. O grupo alega que, durante a caminhada até as estações, funcionários estão sendo assaltados fora do perímetro próximo ao evento, onde fica concentrada a maior parte da segurança pública.

Para se manterem informados, os trabalhadores criaram um grupo em uma rede social onde compartilham mensagens, relatos e avisos. Na madrugada de segunda-feira (7), as seguintes mensagens foram compartilhadas:

"Gente, aos que ficaram, muito cuidado com telefone. Acabaram de roubar alguns amigos meus. Dois desses amigos foram roubados dentro do evento, um foi na saída perto do BRT Rede Sarah". A outra mensagem diz: "Eu estava falando com uma segurança. Ela falou que os assaltos no túnel do Centro Olímpico para o Morro do Outeiro estavam demais".

Vereadora protocola ofícios

Diante do aumento das denúncias no primeiro fim de semana de festival, a vereadora Thais Ferreira (PSOL) protocolou dois ofícios na segunda-feira (7), em caráter de urgência: o Ofício nº 158/2026, dirigido ao secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes, e o Ofício nº 160/2026, encaminhado à presidente da Mobi-Rio, Claudia Secin.

"Solicitei explicações sobre as restrições, as ordens operacionais dadas às equipes e providências antes dos próximos dias do festival, em 11, 12 e 13 de setembro. A resposta pública da Mobi-Rio acabou confirmando o centro da denúncia: entre 23h e 4h, justamente no horário em que muitos trabalhadores encerram suas jornadas, o Terminal Centro Olímpico não pode ser utilizado por eles. A empresa diz que existem outras estações no entorno, mas não responde sobre as distâncias, a segurança dos trajetos, a acessibilidade nem por que o terminal mais próximo não permanece disponível enquanto ainda há profissionais deixando o evento", diz a vereadora.

O que dizem os envolvidos
A organização do Rock in Rio disse que está acompanhando a situação e buscando resoluções junto aos órgãos públicos para uma melhor solução para os trabalhadores. "O festival esclarece que o transporte público e a segurança no entorno são realizadas pelos órgãos competentes", completou a empresa.
Em nota, a Mobi-Rio repetiu as informações divulgadas em suas redes sociais. Leia na íntegra abaixo.

"Os trabalhadores do Rock in Rio poderão utilizar normalmente o sistema BRT, mediante o pagamento da tarifa regular de R$ 5,00.
Na ida para o evento, o sistema BRT funcionará normalmente, com exceção da estação Parque Olímpico, que terá o funcionamento encerrado às 10h. Para o retorno, os trabalhadores que deixarem o evento pelo Portão P3 poderão utilizar o Terminal Centro Olímpico entre 4h e 23h. No período entre 23h e 4h, quando o terminal não estará disponível para esse acesso, os passageiros poderão embarcar nas estações Riocentro, Rede Sarah e Asa Branca, que funcionarão 24 horas durante o evento, com pagamento da tarifa regular de R$ 5,00.

A Estação Riocentro é a opção mais próxima para quem sai pelo Portão P3. A distância entre os dois pontos é de aproximadamente 750 metros, equivalente ao percurso entre a Cidade do Rock e o Terminal Centro Olímpico”.

Em relação à segurança pública, a Polícia Civil não respondeu aos questionamentos sobre o número de ocorrências de furtos e roubos nas proximidades da Cidade do Rock.