Quarto submarino da Classe Riachuelo avança nos testes para entrega prevista em 2027Rodrigo T Ribeiro / Agência O DIA
O avanço mais recente desse programa foi a conclusão da primeira imersão estática do submarino Almirante Karam (S43), realizada na área marítima de Itacuruçá, próxima ao Complexo Naval de Itaguaí. O procedimento, divulgado pela Marinha em setembro de 2026, avaliou a estanqueidade do casco, o funcionamento dos sistemas de bordo e o comportamento da embarcação na água, antes das próximas etapas de testes.
A atividade é uma fase importante do processo de construção e preparação do submarino. Sem utilizar a propulsão para se deslocar, a embarcação é levada de maneira controlada à condição de imersão. Militares, engenheiros e técnicos acompanham os parâmetros de equilíbrio, estabilidade, peso e inclinação. Os resultados permitem comparar as previsões feitas durante o projeto com o comportamento real do equipamento.
Para o comandante do submarino Almirante Karam, Capitão de Fragata Leandro Amaral, a etapa também tem papel importante na preparação da tripulação para as próximas fases de avaliação.
“Para a tripulação, acompanhar a imersão estática é um momento muito importante. É quando passamos a conhecer, na prática, o comportamento do submarino na água. Os dados obtidos nesta etapa aumentam a nossa familiaridade com o meio e contribuem para a preparação dos próximos testes”, afirmou.
O Karam seguirá para avaliações progressivamente mais complexas, que incluem navegação na superfície, imersão dinâmica e testes de desempenho dos sistemas de bordo. A incorporação ao setor operativo da Marinha está prevista para o segundo semestre de 2027, conforme o cronograma divulgado pela Força Naval.
Tecnologia nacional e autonomia estratégica
O submarino Almirante Karam é o quarto da Classe Riachuelo, baseada no projeto francês Scorpène e adaptada às necessidades operacionais brasileiras. Diferentemente dos três primeiros, já incorporados à Marinha, o Karam ainda passa pelas etapas de avaliação que antecedem sua entrada em operação.
A construção é realizada pela Itaguaí Construções Navais (ICN), no âmbito do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), criado a partir da parceria estratégica entre Brasil e França. O programa contempla transferência de tecnologia, capacitação de profissionais e desenvolvimento de uma estrutura industrial especializada no país.
Esse conjunto de iniciativas tem importância direta para a soberania brasileira. O domínio de conhecimentos técnicos, a formação de engenheiros e profissionais especializados e a capacidade de construir e manter equipamentos complexos no território nacional contribuem para reduzir dependências externas e ampliar a autonomia em decisões estratégicas de defesa.
A construção de submarinos também exige a integração de diferentes áreas da indústria, como engenharia, metalurgia, eletrônica, sistemas de navegação, comunicação e detecção. A manutenção dessa cadeia de conhecimento pode gerar oportunidades para empresas fornecedoras, trabalhadores qualificados e instituições de ensino e pesquisa.
Para o diretor-presidente da Itaguaí Construções Navais, Pierre Edouard Gille, a primeira imersão estática do Almirante Karam representa um marco no processo de construção da embarcação e no trabalho desenvolvido pelos profissionais envolvidos no programa.
“A primeira imersão estática do Submarino Almirante Karam representa um marco para a ICN e para todos os profissionais envolvidos no PROSUB. É nessa etapa que o trabalho realizado no projeto, na construção e na integração dos sistemas começa a ser confirmado na água. O resultado demonstra a capacidade técnica desenvolvida no Brasil e nasce da atuação conjunta da Marinha, da ICN e de nossos parceiros. Meu reconhecimento a cada profissional que contribuiu para que o Karam chegasse a este momento e pudesse seguir com segurança para os próximos testes”, declarou.
Por que Itaguaí é estratégico para o Brasil?
A localização do complexo naval na Ilha da Madeira coloca Itaguaí no centro de um empreendimento de alcance nacional. A infraestrutura já foi utilizada na construção dos submarinos Riachuelo (S40), Humaitá (S41) e Tonelero (S42), atualmente incorporados à Marinha. A experiência acumulada nessas etapas também contribui para a continuidade do programa e para o desenvolvimento de novas capacidades tecnológicas.
A relevância do projeto está relacionada, ainda, à dimensão marítima brasileira. O país possui uma extensa costa e áreas oceânicas de grande importância econômica e estratégica, associadas ao comércio exterior, às rotas de navegação, à pesca e à exploração de recursos naturais. Nesse contexto, dispor de meios navais e de pessoal capacitado é parte da estrutura necessária para monitorar e defender os interesses nacionais no mar.
O Prosub também está associado ao desenvolvimento do submarino brasileiro com propulsão nuclear, o Álvaro Alberto, que terá armamento convencional. O projeto representa uma etapa tecnológica distinta da construção dos submarinos convencionais da Classe Riachuelo e demanda conhecimentos e infraestrutura altamente especializados.
O Almirante Karam, por sua vez, é um submarino convencional. Sua construção e seus testes fazem parte do processo de consolidação da capacidade brasileira de projetar, construir, integrar e avaliar sistemas submarinos.
Conhecimento que permanece no país
O avanço do submarino simboliza mais do que uma nova etapa de construção naval. Representa a continuidade de um investimento em conhecimento técnico, infraestrutura e formação profissional, elementos que podem permanecer no país e contribuir para projetos futuros.
A construção do Karam mobiliza profissionais envolvidos no projeto, na fabricação e na integração dos sistemas da embarcação. A conclusão da imersão estática representa uma etapa de verificação prática do trabalho realizado, permitindo que os responsáveis avaliem os resultados antes de autorizar a progressão para testes mais complexos.
Em Itaguaí, a soberania ganha expressão concreta em instalações industriais, equipamentos, pesquisa e trabalho especializado. O desenvolvimento de submarinos fortalece a capacidade de defesa brasileira e mantém o Rio de Janeiro em uma posição estratégica dentro de um programa que envolve tecnologia, segurança nacional e autonomia industrial.











