André Gabeh: Macumba quântica

Eu adoro meus amigos camelôs, mas hoje precisava de um silenciozinho amoroso

Por O Dia

Na foto o novo colunista do Jornal O Dia André Gabeh - Foto: Ricardo Cassiano / Agência O Dia
Na foto o novo colunista do Jornal O Dia André Gabeh - Foto: Ricardo Cassiano / Agência O Dia -
Rio - Segunda-feira fui a uma tal de MACUMBA QUÂNTICA e estava ansioso pra falar sobre o fato aqui na coluna. Eu escrevo no ônibus, indo ou voltando do trabalho, no meu celular furreca, mas hoje, enquanto tento descrever os surrealismos que vivi, está acontecendo uma convenção de ambulantes dentro desse 636 bucólico. Eu adoro meus amigos camelôs, mas hoje precisava de um silenciozinho amoroso.

Luiz já estava embarcado vendendo Bis e insistiu umas trezentas e seis vezes na rima de seu nome com seu produto. Na centésima rima eu já estava querendo uma calcinha de chacrete pra me enforcar. Prometi três mil pulinhos pra São Longuinho caso ele me fizesse achar minha paciência. Achei. Luiz desceu e eu senti paz por saber que um trabalhador estava feliz com suas vendas e porque eu poderia me concentrar pra escrever.

Estava calculando o quanto de calcitran eu precisaria tomar depois de dar meus pulos, quando minha ilusão foi mastigada por um tiranossauro rex e cuspida na minha cara em forma de um barulho ensurdecedor.

PRIIIIIIIII

Levei um susto tão grande que meu coração trocou de lugar com o intestino.

O causador do escândalo se anunciou:
- Sou o moço do apito, vendo pro feio e pro bonito. Esse é meu primeiro dia de coletivo e o apito é meu diferencial.

Uma senhora daquelas bem “nossas”, pulôver lilás e cabelo acaju dourado, se manifestou:
- Pode aposentar essa merdERROR404. Se tu toca isso com o ônibus cheio tu só volta a apitar no cemitério de Inhaúma.

O apiteiro saltou sem vender nada, com cara de colher suja, e foi imediatamente substituído por JONNI que também faz riminhas e vende jujuba a “pague três e leve duas”. Comprei pra ver se Deus via que sou bom. Não adiantou: Em Cascadura, carregando uma caixa imensa, entrou o indefectível MARCIO DO 636. O Marcio do 636 é uma força da natureza, ele entra no ônibus e já joga o seu currículo nos nossuscórnu porque, segundo ele, a pessoa além de comprar seus produtos também pode lhe arrumar um emprego. Tá certo, ele? Muito certo. Ele nos conta que além de ambulante é segurança, garçom, professor de Química, boleiro, artista circense de tecido, adestrador de saguis e DJ de missa. Marcio do 636 só não fala mais que o famoso HOMEM DO TORRONE que, nos anos 90, demorava umas sete horas pra nos convencer a comprar um produto que já queríamos no minuto em que ele tirava da caixa.

Marcio ainda estava explicando sua formação em pompoarismo de umbigo quando, na pracinha de Quintino, ouvimos um estrondo e o tilintar do vidro estilhaçando.

PAH

A acaju gritou: “É TIRO!” E se jogou no chão.

Um senhor tricentenário teve uma crise de tosse que se transformou em uma crise de flatos. Perguntava “o que foi? O que estava acontecendo?”. Tava meio surdinho e só entendeu que havia um caos porque a senhora e mais umas três pessoas estavam no chão.

Uma mulher que estava mandando áudios no zap desde a Praça Seca falou pra pessoa que a ouvia do outro da linha: "Deixa eu desligar aqui que acho que mataram o chefe da milícia"

Oi?

Patrick, uma criança satânica que embarcou no Campinho, teve uma crise de choro quando ouviu a palavra milícia. A mãe o consolou dizendo: “Num foi seu pai, não, meu amor. Seu papai tá preso”. Patrick voltou a sorrir e a ouvir seus hip hops infantis.

Marcio pedia calma. Eu tentava me livrar da invasão do Wi-Fi da rua que insistia em calar a boca do meu 4G.

Uma mulher atrás de mim falou: “Eu não ia sair se casa. Toda vez que meu peito esquerdo coça dá merdERROR404. Hoje ele coçou e empolou!”

Sorri solidário, mas com pânico dela me mostrar as brotoejas.

O motorista desceu pra averiguar os acontecimentos e Marcio ficou nos amparando e dizendo que mastigar seus chicletes acalmava.

O motorista avisou que um pombo havia colidido com o ônibus e que seguiria pra garagem.

Pegamos outra composição.

Um camelô entrou, dois pontos depois, e pediu desculpas por interromper o silêncio e o conforto de nossa viagem.

Eu ri.
Macumba Quântica fica pro domingo.

#artistasuburbanoreflexivo

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