Tudo pelos doces de São Cosme e Damião

O apogeu de doces no dia de São Cosme e Damião era de manhã e quando chegava às onze e meia dava uma diminuída porque o sol já começava a ficar insuportável e era a hora do almoço

Por André Gabeh

André Gabeh
André Gabeh -
Rio - Deixa eu voltar pros contos Cósmicos e Damiânicos. Falei até de lobisomem e não voltei a PILARES pra contar minha história, e amanhã já é dia 27. Socorro Xeçus!

Bom... Num desses dias de Cosme e Damião, após eu ter corrido atrás de todos os saquinhos da vida e estar
escorrendo aquele suor preto do pescoço, minha vó falou: - Meu neto, vá tomar um banho que às 16h30 é doce do cartão lá do prédio de Dona Alzira (acabo de me dar conta que estou contando outra história. Ou será mesma que comecei? hahahaha). Fiquei louco. Antigamente, o horário entre 16h30 e 18h era o terceiro turno, apoteose final da distribuição de doces.

O esquema era assim: O apogeu de doces era de manhã e quando chegava às onze e meia dava uma diminuída porque o sol já começava a ficar insuportável e era a hora do almoço. A coisa voltava com força lá pras duas horas e por volta das três e meia a gente ia curtir a primeira caganeira da tarde, descansar um pouco e, por volta das quatro e doze, começavam os doces finais e o ápice do dia que eram os doces caros do Bloco Novo e o momento AUGE de seu PIPI jogando dinheiro pela janela. Quem morou na Mario Carpenter e não teve traumatismo craniano causado pelo impacto das moedas jogadas do quarto andar do bloco 61, passou pela vida e não viveu.

Minha vó queria que eu perdesse todo esse sururu pra pegar doce de mesa e de cartão. Era a mesma coisa que pegar um cachorro e tirá-lo de dentro de uma piscina cheia de linguiças e colocar diante de um pratinho com ração seca. Mas eu queria agradar vovó. Ela fazia de tudo pra me alegrar e eu não podia privá-la da oportunidade de alegar incorporação pra burlar sua diabete e comer doces.

Fomos.

Chegamos no horário, mas havia uma fila imensa porque a entidade ainda tava dando os passes nos donos da casa e isso era feito em cerimônia fechada. Quando a porta abriu, havia uma mocinha em trajes comuns
organizando a entrada das pessoas. Eu sofria por ver que havia doces sendo distribuídos nas redondezas, mas o amor por minha vó era maior.

Tudo corria na mais santa paz, até que entrei na sala mínima do apartamento térreo do conjunto dos ferroviários, abarrotada de decoração festiva. As pessoas entravam, comiam suas coisinhas e saiam com brinquedos e sacos que eu não conseguia ver o que continha.

Chegou a minha vez de entrar e já fiquei apavorado e me agarrei com vovó. Seu Ranildo, dono da casa,
um louro alto, de uns sessenta e cinco anos, sensação térmica de oitenta, feio que nem desdentado
falando abracadabra com a boca cheia de angu, estava vestido com uma roupa de lamê azul-fusquinha
e chupava uma chupeta também azul, enquanto dava pulinhos e falava de um jeito engraçado. Eu era
novinho, nunca tinha visto aquilo. A mesa estava cheia de manjares coloridos e fatias de bolo cortadas.

Seu Ranilfo estava incorporado do Chuvinha e quando me viu resolveu “fazer amizade”.

- Darmãe, olha o xebê! - Esse darmãe é o jeito com que os erês chamam as mulheres e ele falou isso pra sua filha, Goreth. O xebê , no caso, era eu.

- O que é Xebê ? - Goreth perguntou, dando voz a curiosidade de todos.

Ele respondeu: - É aquele pôquinho gôdinho do supemecado.

Climão.

Ces entenderam? O erê estava me chamando de porquinho da Casa da Banha. Xebê era CÊ BÊ.
UMA FLOR DE ÓDIO BROTOU EM MIM.
Pedi pra ir embora.
Minha vó não deixou. Achava que era contra axé.
O erê continuou na sua fofura, pegou um pedaço de manjar, lambeu, esfregou no chão e depois ofereceu: - Toma, xebê.
Eu respondi fofo: Teu rabERROR404.
Minha vó me repreendeu. Todos me repreenderam.
A entidade riu e veio em minha direção com aquela massaroca nas mãos.
- Toma Xebê.

Me escondi atrás da minha vó que também já estava se irritando.
Ele se aproximou mais e colocou o doce perto da minha boca.
Não deu certo. Se ele era Chuvinha eu era Bueirinho. Ele chegou perto, eu pulei nele e enchi de tapa e
chute. Minha botinha ortopé até descolou. O pau comeu. Gente me defendendo. Outros defendendo o erê. Porradaria. Bolo voando.
Quebramos tudo.
O ano era 1983.
Nada foi como antes.
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