'Tia' no subúrbio é apelido

Todo mundo tem uma tia ou um tio que é a alma da casa, da festa, da rua!

Por André Gebeh

Rio de Janeiro - 01/08/2019 - Escritores do subúrbio na Bienal no Livro. Na foto acima André Gabeh. Foto: Luciano Belford/Agencia O Dia
Rio de Janeiro - 01/08/2019 - Escritores do subúrbio na Bienal no Livro. Na foto acima André Gabeh. Foto: Luciano Belford/Agencia O Dia -
Rio - Todo mundo tem uma tia ou um tio que é a alma da casa, da festa, da rua!

No subúrbio essa figura é tão sagrada que ser chamado de TIO é a mesma coisa que receber um título real.
Se aqui e ali, alguém te chama de tio e isso não vem de nenhuma relação de proximidade ou afetividade, esse TIO é só um jeito que o outro achou pra te chamar de velho, mas se você é o TIO FIRINFINFIM DE ALI, a TIA COTINHA de ACOLÁ ou o TIO CUMBUCA de alhures,tu é nobreza na Zona Norte.

E raramente os “sobrinhos” tem laços consanguíneos com esses tios, a coisa se dá num nível muito maior e mais abrangente.

Tia Taninha é minha tia de mentirinha em Pilares. E é tia. Ponto.

Tenho três tias por parte de mãe: Tia Ete, Tia Duca e tia Inha; uma tia por parte de pai: Tia Lia e tenho a cunhada de minha mãe, Tia Vania (minha mãe teve outras cunhadas esposas do meu outro tio, mas já me conheceram adulto e não as chamo de tia) e as cunhadas de meu pai,Tia Lucia, Tia Sandra, Tia Silvana, Tia Iara e Tia Dety. Todas queridas e peculiares, mas minha relação com as irmãs da minha mãe é mais forte
porque elas me criaram.

Hoje é aniversário da mais pitoresca e solar delas: Tia Ete.

Todo mundo tem uma tia assim ou é esse tio/tia pra alguém.
Generosa.
Bonita.
Exuberante.

Cheia de amigos e responsável pelas melhores festas, porque tem o elenco mais da pá virada e porque sempre pôde dar as festas mais legais regadas a muito chopp, cerveja, cuba-libre e garrafão de vinho.
Todo mundo tem a tia que come no esporro e tua mãe chega juntinho pra apoiar e ainda empresta o chinelo pra tu levar um corretivo da irmã.

Todo mundo tem a tia que passava creme Nívea de latinha pra ficar brilhosa, a tia que usa os dentes de leite dos sobrinhos como pingente. A tia da Oxum que, nos anos 70, usava varias cordões, pulseiras, anéis e etc de ouro, aquele ouro do mais caro, vermelho que nem o primeiro xixi da manhã ao acordar de um porre de vinho. Todo mundo tem essa tia que empenhou esses mesmos ouros nos anos 80 e hoje só tem um cordãozinho ou outro porque até pode viver sem sua dignidade, mas não vende a gargantilha que ganhou
do cadete que dançou com ela em sua festa de quinze anos.

Todo mundo tem a tia que está sempre com um copinho de cerveja na mão, bebe mais álcool que carvão de churrasqueira improvisada, mas que, por um mistério insondável, nunca fica bêbada ou faz vexame.
Todo mundo tem uma tia que apresentou os lançamentos de Beth Carvalho, Alcione e Martinho da Vila nos almoços de domingo.

Todo mundo tem uma tia que mexia a panela das comidas deliciosas que só elas sabem fazer, rebolando ao som da dança do Caxambu, panela de pau em uma mão e copinho de birita na outra.

Todo mundo tem aquela tia que faz você se lembrar de onde veio e pra onde vai.

Todo mundo tem a tia que ajudou nos estudos, levou pra passear, ensinou as regras do bom viver, te dava um dinheiro pra você comprar Frumello.

Todo mundo tem a tia mais cheirosa do mundo (Gente, minha mãe, minha vó e minhas tias nunca tiveram cheiro ruim. Que estranho. Acho que suavam leite de colônia. Com vocês também é assim?)

Minha tia Ete é dessas. E é uma semi deusa suburbana, amiga de todos os donos e frequentadores de bar, dos comerciantes, do povo do jogo de bicho, das lendas de Pilares e Abolição.

É conhecida como Anry ou Mamãe, e alguns abusados a chamam de tia. Mas ela é só minha (e dos meus primos).

O poder da tia é tão primordial e avassalador que estou eu, aqui no 636, escrevendo essa crônica amorosa e, magicamente, se materializa um cara querido e talentoso que conheci ontem em um encontro de escritores, e, conversa vai, conversa vem, e sem notar sobre o que eu escrevia, ele me apresenta quem?
SUA TIA, que estava ao seu lado porque ambos se encaminhavam ao Salgado Filho pra tratar do mesmo problema ortopédico.

É mole?

Viva minha TIA ETE, minha segunda mãe.
Um viva a toda as minhas tias.
Um VIVA a todas as tias de TODO O MUNDO!
E sabe o que eu descobri em 2009? Ser tio é a melhor coisa da vida.

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