Por Luís Pimentel

O meu Carnaval de observador de rua começou semana passada, no lindo desfile (mais um) do querido Imprensa Que Eu Gamo. Já fui bloqueiro e rueiro daqueles de fazer levantamento na programação dos jornais e preparar papelins com anotações e diários da folia, escolhendo os blocos que iria seguir. Do Carmelitas, na sexta-feira, ao enterro dos ossos no quase-bloco do Bip Bip, que fechava o caixão depois da meia-noite de terça. Passando por Bola Preta, Barbas, Simpatia, Bloco de Segundo e lá se vai (ou se foi). Era assim, no princípio.

No princípio, mesmo, era o Verbo. No livro da Bíblia, o Verbo estava com Deus, e "o Verbo era Deus." Pelos deuses do Carnaval, que já tomam conta de vez da cidade, no princípio era também a alegria, porque todo poder durante esses dias emana do povo; especialmente o poder da criação. Se no Gênesis "a luz resplandece nas trevas", no Rio de Janeiro resplandece no Sambódromo e nas principais ruas e avenidas por onde os blocos vão passar, iluminando a esperança de que, pelo menos durante esses dias, homens, mulheres e meninos possam ser felizes. Muito embora se trate apenas da felicidade efêmera, pois na cidade, no estado e no país os dias têm sido sem graça, sem brilho e sem fé.

No princípio era o Verbo, e o Verbo era de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Cartola, Carlos Cachaça, Babaú da Mangueira, Sabiá e Anescarzinho do Salgueiro, Guará, Beto Sem Braço, Zé Katimba, Dona Ivone Lara, Ismael Silva, Noca da Portela, Monarco, Nelson Sargento, Martinho e Luiz Carlos da Vila... E quem puxava o verbo era Jamelão, Quinho, Gera, Dominguinhos do Estácio, Neguinho da Beija-Flor... Todos de olho no altar onde pontificavam Xangô da Mangueira, Mestres André e Louro... cito esses porque hoje não sei muito bem como é que a banda (ou a bateria) toca.

Mas sei que muita gente boa, seja pura ou impura, derramou vales de lágrimas na Avenida, acompanhando a escola do coração em passos e compassos que diziam "Minha romântica senhora tentação/Não deixe que eu venha sucumbir nesse vendaval de paixão", ou "Neste cenário de real valor/Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou", ou ainda "Nossa sede é a nossa sede de que o Apartheid se destrua"...

Porque no princípio era o Verbo e toda verba é pecadora (especialmente aquelas que definem o Carnaval de encomenda), peço à Igreja que não veja blasfêmia nessas palavras, não me crucifique que nem crucificou um dia aquele "Cristo Mendigo Joãosinho Beija-Flor", pois essa verborragia não passa de brincadeira, enquanto vejo o bloco, o passarinho, os amigos e aquela linda passista passarem.

Evoé, cambada!

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