Bárbara Mello (ensaio técnico 2011) - Foto Diego Mendes - Divulgação
Bárbara Mello (ensaio técnico 2011) - Foto Diego MendesDivulgação
Por GUSTAVO RIBEIRO

Conta a história que o primeiro samba brasileiro ('Pelo Telefone', composto em 1916) nasceu na Praça Onze, na casa de Tia Ciata, baiana, mãe de santo e quituteira que promovia festas religiosas e famosas rodas de partido-alto no início do século XX. Daí já dá para ter uma ideia da responsabilidade que é atravessar a Sapucaí girando com saia armada, torço e balangandãs das tias nordestinas. Com a baixa de baianas experientes, por razões como o avanço da idade e de religiões protestantes, cada vez mais mulheres nas casas dos 20 e 30 anos, inspiradas em mães e avós, abraçam cedo a missão, rejuvenescendo uma das mais tradicionais alas de escolas de samba.

Falta de baiana não é problema no Grupo Especial, garantem as chefes de ala. Algumas agremiações têm fila de espera de mulheres querendo rodopiar, como Salgueiro e Vila Isabel. Maria da Glória Lopes, a Tia Glorinha, 71 anos, vê pouco a pouco, nos últimos 10 anos em que comanda a ala no Salgueiro, jovens ocupando vagas de senhoras que deixaram o grupo, formado por 90 componentes de 31 a 80 anos.

"Antigamente a ala era formada pelo pessoal de idade. Muitas saíram porque foram ser evangélicas. Eram antigas rezadeiras que mudaram de religião. Outras estão cansadas e vão para a velha guarda", explica. "Está sendo novidade as novinhas desfilarem", reforça Ademilde Silvino, a Nequinha, 63, presidente da ala na Beija-Flor. Ela deixa um conselho para as novatas. "O mais indispensável é ter disciplina e gingado. As iniciantes aprendem a girar com as antigas. A renovação da ala é importante para a tradição nunca acabar", destaca.

A jornalista Bárbara Mello, 31, mais jovem da ala do Salgueiro, é fruto da cultura que passa de geração a geração. Foi ajudando a mãe a arrumar a fantasia que Bárbara se apaixonou pelo jeito baiana de ser. Ela entrou para a ala em 2010, aos 22 anos, seguindo os passos da pedagoga Cláudia Santos, 54, baiana desde 2006. "É uma troca de experiências absurda com aquelas mulheres que já viveram tantos Carnavais. A história delas no Carnaval se confunde com histórias de vida. É mais que uma experiência carnavalesca. Ser baiana me engrandece como pessoa", comenta Bárbara.

Diretora da ala na Vila Isabel, Vera Lúcia Bellandi, 70, estima que 40% de suas baianas tenham até 50 anos. A auxiliar de padaria Geysa Anacleto, de 22 anos, é baiana desde os 17. Também se inspirou na mãe, a dona de casa Heloísa Anacleto, 54. "Geysa ainda fez cursinhos para porta-bandeira. Enquanto não vem a oportunidade, ela adora aquela roupa de baiana e fica doida quando se arruma", diz Heloísa.

Mudança de perfil em 1990
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A aceleração do andamento dos sambas, nos anos 90, fez as escolas substituírem antigas baianas por jovens das quadrilhas juninas, segundo Hélio Ricardo Rainho, pesquisador de escolas de samba. Ele explica que a idade média de baianas no final da década de 80 era acima de 50 anos, com a figura de 'mães' em um elo simbólico com as mães de santo que acolhiam as rodas de samba em seus terreiros quando o ritmo era perseguido.
"Os sambistas eram presos por vadiagem. Eles se reuniam nos terreiros para disfarçar a manifestação cultural", conta Hélio. Ele explica que o giro representa a celebração da vida e o rodopio das iaôs (cargo da hierarquia do Candomblé). "Talvez não se esteja falando de religiosidade ligada a um credo, mas de amor pelo pavilhão: elas são as mães que geram filhos e conduzem no amor à bandeira das escolas".
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