O fim do policial que acendia vela pro bandido

Policial da década de 1960 ficou famoso por executar suspeitos na Baixada. Para ele, a Justiça era lenta, cara e burocrática. Acabou preso por matar uma inocente

Por Luarlindo Ernesto

Os criminosos que se cuidem. Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender a ampliação do excludente de ilicitude para pessoas na defesa de suas vidas e propriedades. A ideia é dar retaguarda jurídica aos policiais em combate com bandidos. Bolsonaro acredita que isso irá diminuir a violência. Já vi esse filme. Mas outras gerações não viram.

Em entrevista sobre o projeto, Bolsonaro usou uma frase de efeito: "Os caras vão morrer na rua igual barata, pô". Pelo lado de cá, o governador Wilson Witzel já avisou à bandidagem: "bandido portando fuzil vai morrer". Bem, mais um tentativa de frear a violência no país. Releituras do antigo "bandido bom é bandido morto". Pouca gente sabe. Mas esse slogan foi popularizado pelo delegado José Guilherme Godinho Sivuca Ferreira, que usou a expressão para se eleger como deputado estadual em 1986.

Entre as décadas de 1960 e 1970, o deputado-delegado Sivuca foi homem de ouro da polícia carioca. Em 1959, trabalhadores do antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem faziam trabalho na Rodovia Washington Luiz, Rio-Petrópolis, quando, de repente, encontraram 17 esqueletos humanos. Na época, o caso foi apontado como "bandidos mortos pelo Esquadrão da Morte", criado pelo policial federal Eurípedes Malta, 'amigo' do doutor Castor de Andrade. O caso dos 17 mortos nunca foi esclarecido e rapidamente caiu no esquecimento dos jornais, revistas e da opinião pública.

Nos meados dos anos 1960, quem ganhou destaque foi o Coelho Toco de Vela, um investigador da Polícia Civil do Rio. Coelhão, outro apelido dele, só matava bandidos. Agia na Baixada. E o apelido veio do ato cristão de, sempre que matava alguém, deixar um toco de vela, aceso, ao lado do corpo. A polícia inteira sabia, então, que aquele morto era obra do Coelho.

Aquele senhor, olhar respeitoso, cara de avô que mima os netos. Fala mansa, gestos calmos, parecia uma dama. Sempre agiu sozinho. Matava sem deixar testemunhas. Era respeitado na polícia. Para ele, a lei sempre foi lenta, burocrática e cara. Incrível, sua vida não virou filme ou livro.

O folclórico Toco de Vela acabou preso, acusado de matar uma mulher inocente, que ele suspeitava ser autora de algum crime. Já morreu há mais de 40 anos. Pobre e esquecido.

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