O avião e o amigo

Por Luarlindo Ernesto

Acordei na madrugada de 1º de junho, de 2009, lá pelas 4 da matina, como de costume. Hora de levantar para ir à labuta. Ligo o rádio, a TV. Logo, vem a notícia da queda de um avião no Atlântico, o voo 447. Kactada! É o do Fred! Meu Deus, que desgraça. Fiquei nervoso, troquei o creme dental pelo de barba. Vesti a cueca ao contrário. Esqueci do açúcar no café. Quase atropelei a gata...
E, assim, passaram 10 anos. Não importa mais. O importante é que Fred está vivo e solto! Amigo de 40 anos, vizinho exemplar, companheiro de esbórnia e de copos e mais copos. "Vamos de snaps agora, ô gringo?", perguntava ele, quando nos encontrávamos no início das noites. Quase todas no bar da Maria. Aqui na Água Santa, é claro.
Eu o apresentava a conhecidos como "um etíope amigo meu". Ih, ele ficava fulo. Permanecia de seis a nove meses embarcado nas rotas marítimas do Golfo Pérsico, Europa e América do Sul. Quando estava no Rio e tinha que voltar ao mar, pegava um voo para encontrar o navio na Europa e começar tudo de novo, transportando petróleo, minério, ou sei mais o quê. Voltava ao Brasil e passava corridos e rápidos meses por aqui. Época de longos papos e, para variar, "molhar a palavra".
Nascido na Suíça, ficou apaixonado pelo Brasil. Fixou residência e família. Casou com uma baiana e aumentou o gosto pela feijoada, mocotó, acarajé e outros mimos da culinária afro-brasileira. Do chope, steinhaeger (chama de snaps toda a bebida quente). E comprou uma Lambreta, além do carro.
A casa, de dois andares, foi adaptada para receber, em um varandão nos fundos, os seletos amigos em encontros que promove, até os dias de hoje, no Natal, Ano Novo, Carnaval ou mesmo em agosto (aniversário dele e meu). Ainda prepara a comida, com todo o equipamento necessário para cozinhar, assar, cozinhar, churrascar. No cardápio, tem até comidas típicas da Suíça. Para completar, um razoável estoque de bebidas. Um mimo. Os amigos se entristecem quando ele tem que partir para nova jornada de meses no mar. É a vida.
Nesse dia 1º de junho, a notícia da queda do avião da Air France se espalhou pela Água Santa. Fred seguiria para Paris. Faria conexão para a França, onde estava o navio a sua espera. Eu, no chuveiro, na madrugada antes de ir ao trabalho, tentei bolar um plano para falar com a mulher dele.
Resolvi telefonar, mais tarde, lá pelas 7 horas. "E, ai? Tem notícias do Fred? Ele chegou bem? Já está no navio?". Conversa pra boi dormir, com medo de ir direto ao assunto. Hélia respondeu que tudo estava bem, como o previsto, e que o marido estava bem. Pô, pensei que ela não soubesse da queda do avião. Como dar a notícia? Mas outros amigos já haviam telefonado, usando a mesma conversinha de "cerca lourenço". Quando liguei, lá pelas oito horas, depois de dezenas de telefonas de amigos em comum, resolvi ligar e contar sobre a queda.
"Ô Luar! Para de conversa mole. Fred está vivo, não morreu na queda do 447. Ele resolveu, no Galeão, trocar a passagem por outra companhia e conseguiu embarcar mais cedo. Já tá quase chegando na França, vivinho. Avisa à turma que nada aconteceu. Tô de saco cheio de telefonemas de enrolação dos amigos".
Ufa, que alívio. Fred, hoje, é aposentado, ainda vive na mesma casa, com a mesma mulher, com os mesmos amigos, tem mais uma data que adicionou na, agora mais longa, agenda: 1º de junho. E sem as ausências prolongadas... Haja fígado, meus amigos!
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